“O que meu pai sabia é meu, mesmo que eu não saiba”

Durante o período em que o pessoal da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN esteve em Brasília, tivemos a oportunidade de conversar com Domingos Barreto (Tukano) e Renato Matos (Tukano) sobre as formas como seu povo maneja determinadas categorias de conhecimentos. Seguem alguns comentários e coisas interessantes que aprendi na conversa.
Para os Tukano, determinados clãs têm poder para fazer certos benzimentos. Esses benzimentos pertencem a um clã de forma “natural”, passando de geração a geração, apenas entre os homens. É evidente, para os Tukano, que o filho de um kumu que tem autoridade para dar um benzimento saberá também fazer isso, pois isso vem “naturalmente” na pessoa dele. Por outro lado, o exercício desse benzimento por outro clã ou povo que não o seu detentor é considerado “roubo”, e pode ser causa de disputas internas.
Um aspecto interessante desse conhecimento “herdado naturalmente” é que ele pode, em certas circunstâncias, ser transferido temporariamente para a guarda de uma pessoa de outro clã ou povo. Por exemplo, um velho Tukano João tem apenas filhas, ou um filho José muito pequeno ainda, que possivelmente não terá tempo de ver seu pai lhe ensinar os benzimentos de seu clã. Se uma das filhas do velho é casada com um Tuyuka, por exemplo (lembrando que os povos do Rio Negro são exogâmicos, ou seja, casam-se sempre entre povos diferentes), este pode receber o benzimento do velho Tukano, por prevenção, como se estivesse exercendo um mandato para guardar algo que não lhe pertence, para que não se perca. Ao receber esse conhecimento, o genro Tuyuka ficará com o dever de ensinar não aos seus próprios filhos Tuyuka, mas ao pequeno Tukano José (seu sobrinho), no futuro, ou algum sobrinho homem do velho João. Ou seja, o genro Tuyuka não pode benzer nem ensinar o benzimento transmitido pelo sogro Tukano a seus filhos ou a seus irmãos homens, pois o conhecimento não lhe pertence, embora ele o conheça. E mesmo que viole essas regras e faça o benzimento, este nunca funcionará pois apenas os Tukano têm em si o poder para realiza-lo, jamais os Tuyuka.
No futuro, o Tukano José poderá cobrar de seu tio Tuyuka que se lhe ensine o benzimento transferido por seu pai João, ou mesmo que não venha a aprende-lo, terá autoridade para compelir seu tio a ensina-lo a outros que pertençam ao clã proprietário do benzimento. Isso cria uma situação interessante em que aquele que não detém o conhecimento ainda assim detém propriedade sobre ele, controlando sua transmissão através de outra pessoa que não tem autoridade para exercer seu conhecimento, embora conheça. Como bem colocou Domingos Tukano, “o que meu pai sabia é meu, mesmo que eu não saiba”.
Essa noção indígena de propriedade sobre o benzimento e das atribuições do sentido dessa propriedade – capacidade de controle “remoto” e de guarda por mandato – põe em xeque a noção de que o conhecimento é um bem “não rival”, idéia que se traduz claramente na seguinte frase de Bernard Shaw:
“se você e eu temos uma maçã cada um e nós trocamos essas maçãs, então você e eu ainda teremos uma maçã cada. Mas se você tem uma idéia e eu tenho uma idéia, e nós trocamos essas idéias, então cada um de nós terá duas idéias”.
Essa característica do conhecimento – um bem que pode ser transmitido a outra pessoa sem que o transmissor o perca – é um dos fundamentos dos modos colaborativos de produção cultural. Na perspectiva indígena, no entanto, embora seja certo que a transmissão do conhecimento é fundamental, esta deve se dar dentro das regras hierárquicas, sociais e de parentesco que determinam, com fundamento último na mitologia dos povos, que clã tem poder/autoridade sobre qual conhecimento.