“Não podemos instrumentalizar os conhecimentos indígenas"

“Não podemos instrumentalizar os conhecimentos indígenas", alerta o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro

[25/05/2007 12:11]
Nos discursos e projetos sobre o tão falado desenvolvimento sustentável, não faltam apelos à valorização dos conhecimentos tradicionais e indígenas. Mas o interesse por esses saberes, via de regra, é utilitarista: apóia-se apenas no conteúdo, menosprezando a forma. A crítica foi feita nesta quinta-feira (24), em Manaus, pelo etnólogo e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Viveiros de Castro durante o evento Visões do Rio Babel: conversas sobre o futuro da Bacia do Rio Negro

Em sua palestra “Perspectivismo e multinaturalismo na América Indígena”, no terceiro dia do Encontro Visões do Rio Babel: conversas sobre o futuro da bacia do Rio Negro, o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidou os não-indígenas ao diálogo aberto com o sistema de pensamento milenar das culturas indígenas das Américas, a partir do qual os ditos civilizados podem repensar sua própria lógica, cujos valores estão colocando em risco o futuro de toda a humanidade.

“O conhecimento ocidental não-indígena é capaz de prever a própria destruição, mas não de evitá-la. Está na hora da humildade. Os brancos têm que aprender a negociar mais, do ponto de vista cosmológico. A gente ainda não sabe levar a sério o conhecimento indígena. É como se tentássemos tirar de uma nuvem de imagens dados objetivos. Essa apropriação é prejudicial”, alertou Viveiros de Castro. “Nosso interesse pelos conhecimentos tradicionais se apóia apenas nos conteúdos. Imagina-se possível separar o conteúdo da forma, como se eles não fossem articulados. O que distingue o conhecimento indígena do não-indígena é justamente a forma”, completou o pesquisador.

Viveiros de Castro ressaltou que a instrumentalização dos saberes tradicionais nem sempre é consciente ou mal intencionada. “Quando digo ´As tecnologias indígenas são fundamentais para o desenvolvimento sustentável da Amazônia´ - e eu de fato o digo -, falo com um gosto amargo na boca. Acredito nisso, mas ainda assim é instrumentalização. É como afirmar que, se os índios não tivessem nada de interessante para nós, poderíamos acabar com eles”, provocou.

O grande mal do pensamento não-indígena seria a concepção de que o homem nasceu para trabalhar – idéia da qual derivam os ideais de desenvolvimento e progresso. “De tanto produzir, vamos acabar destruindo tudo”, ironizou o pesquisador. “Para a gente, os seres humanos têm o monopólio do conhecer, são a única voz ativa no conceito cosmológico. No pensamento indígena, a natureza não é passiva, objetiva, muda. Os sujeitos humanos e as outras entidades do Cosmos se reconhecem na troca, na circulação de propriedade simbólica”, explicou.

André Baniwa, da diretoria da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (Foirn), concordou com a análise de que as relações entre os indígenas e a natureza é eminentemente social. “Acho que a gente pode traduzir isso como uma relação de respeito”, sintetizou o líder. Ele observou também que a discussão proposta por Viveiros de Castro jogava uma luz nos debates sobre as leis de proteção aos saberes tradicionais. “A Medida Provisória que existe hoje está baseada no conceito de propriedade intelectual, que não é indígena. O Estado só está preocupado com os conhecimentos associados ao patrimônio genético, com os fins econômicos dessa proteção”, criticou.

Exotismo

Há cerca de quatro meses, Viveiros de Castro se hospedou no Hotel Tropical, o mais caro de Manaus. A grande quantidade de artesanatos indígenas expostos aos turistas estrangeiros, com etiquetas que indicavam a origem das peças, chamou a atenção do pesquisador. Ele se deu ao trabalho de fotografar todas elas, para guardar registros de uma aberração: “Nenhuma das informações contidas nas etiquetas estava correta. O nome do povo, a grafia, a utilidade do artesanato, estava tudo errado. Eu pensei: `Poxa, isso é um escândalo! Mas quem se importa?´ O que valia era inserir aquelas peças num exotismo qualquer´”, relatou.

Para ele, a elite americana vive uma ambivalência de poder: ser dominada no plano internacional e dominante no plano interno. “Os brasileiros sempre sentiram pânico de serem confundidos com índios pelos ´verdadeiros civilizados`. Gostamos de nos dizer indígena apenas quando nos convém. Criticamos os yankees e, ao mesmo tempo, brincamos de ser yankees. Isso pauta nossa relação com os sertões, no qual incluo a Amazônia”, destilou.

Perspectivismo e multinaturalismo

Outro alvo das análises do etnólogo foi o discurso de que os indígenas estão em sintonia com a natureza. “A princípio, o dito pensamento ocidental via essa sintonia como algo imanente, inconsciente, orgânico. Depois, passamos a conceber os índios como possuidores dos segredos da floresta que a ciência branca não alcançava. Substituímos a sintonia natural pela sobrenatural. As duas imagens estão erradas: a sintonia dos índios com a natureza não é cultural nem sobrenatural: é social”, declarou.

Castro lembrou que a idéia de mata virgem “tem muito de fantasia”, porque o que chamamos de natureza selvagem é resultado de uma longa história cultural. Ele ponderou, porém, que nem todas as atividades culturais são compatíveis com o meio ambiente. “Dizendo de maneira direta: o fato de a floresta não ser mais virgem não autoriza ninguém a estuprá-la”.

O pesquisador afirmou que enquanto o homem branco tende a ver o indígena como parte da natureza, este enxerga a natureza como parte da sociedade. Na teoria evolucionista, os seres humanos saíram da condição de animais para ocupar o lugar de seres especiais da criação. No pensamento indígena, os animais é que eram humanos. “Nós temos a idéia de que, no fundo, continuamos onça. Acreditamos que se não houvesse leis, acabaríamos nos comendo uns aos outros. A gente imagina que, por baixo da roupa, somos bichos. E os indígenas imaginam que os bichos, por baixo da pele, podem ser gente”, comparou Viveiros de Castro.

Ele explicou ainda que o relativismo cultural (ou multiculturalismo) prega a existência de uma só natureza e muitas culturas. Já no pensamento indígena, que ele classificou de perspectivista e multinaturalista, há uma cultura e muitas naturezas. “Os animais já foram gente, eles vêm o mundo com as mesmas categorias que os humanos. O que muda é o mundo. O que vemos como um grande lamaçal, o queixada vê como maloca cerimonial. O que para nós é sangue, para a onça é caxiri. Mas todo mundo, animais e humanos, dança no centro da maloca, casa com a prima e bebe caxiri”, detalhou o pesquisador.

Seria justamente essa percepção dos entes da natureza como organismos vivos, dotados de espiritualidade, que tem contribuído para afastar a degradação ambiental da Bacia do Rio Negro. Higino Pimentel Tenório, liderança Tuyuka, afirmou que no Alto Rio Tiquié, em São Gabriel da Cachoeira (AM), onde vive, há muito minério, mas as famílias de lá não exploram esse recurso. “Eu perguntei a um parente. ´Tem muito diamante na serra, por que vocês não tiram?´. Ele respondeu que o diamante tem espírito e que, por isso, iria querer um pagamento em troca”, contou. “Então, como é que o índio vai querer virar empresário? Nossa cultura nos impede de empreender. Eu não posso me arriscar sabendo que aquele diamante ali vai cobrar a vida do meu filho ou a minha própria”, questionou.