A Natureza em Pessoa: sobre outras práticas de conhecimento

O texto em anexo foi escrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro para o Encontro "Visões do Rio Babel".
Introdução:
Este trabalho expõe um complexo de idéias presente nas culturas indígenas da
Amazônia relativo ao que chamaríamos ‘natureza’, e sugere algumas de suas
implicações filosóficas possíveis. Ele começa por evocar certas idéias não indígenas
sobre o tema, de modo a situar a diferença entre os problemas
indígenas e ocidentais. O conceito central para a caracterização das cosmologias
indígenas é o de ‘perspectivismo’, que se refere ao modo como as diferentes
espécies de sujeitos (humanos e não-humanos) que povoam o cosmos percebem
a si mesmas e às demais espécies. As implicações de tal perspectivismo para
uma teoria indígena virtual da Natureza e da Cultura são esboçadas.Fala-se muito
em "conhecimentos tradicionais" indígenas, que devem ser valorizados,
assimilados, incorporados ao nosso estoque de conhecimentos, e retribuídos, i.e.
reciprocados. Todos conhecemos esse discurso. Mas eu vou problematizar alguns
de seus aspectos. Primeiro, o interesse pelos chamados conhecimentos
tradicionais se apóia na verade em uma concepção (de nossa parte)
completamente tradicional (no maus sentido) do conhecimento, que não imagina
que a incorporação dos conhecimentos tradicionais vá modificar nossa imagem do
conhecimento dele próprio. Segundo, o discurso sobre os conhecimentos
tradicionais enfatiza os conteúdos desse conhecimento, separando tais conteúdos
de sua forma. Ora, o que disitngue os conhecimentos tradicionais indígenas dos
nossos conhecimentos (tradicionais ou científicos) é muito mais a forma que o
conteúdo, é, além disso, a idéia mesma de conhecimento: a imagem de quem
conhece, a imagem do que há a conhecer, e a questão de para que, ou melhor,
por que se conhece.

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