Encontro de Culturas - dia 2

Pessoal, dando continuidade ao longo trabalho de transcrição e edição do Encontro de Culturas, segue o relato do segundo dia, 5a feira (26/3/2009). Houve as apresentações dos Yanomami e dos Kotiria do Rio Uaupés pela manhã.
À tarde, apresentaram-se os Tariano e Tukano de Iauaretê, com o projeto de registro da Cachoeira das Onças como patrimônio imaterial pelo Iphan, e os Desana com o projeto Bayawi de resgate da língua Desana.

APRESENTAÇÃO YANOMAMI

O DILEMA INSUPERÁVEL: REGISTRAR PARA O FUTURO OU APAGAR A LEMBRANÇA DOS MORTOS?

Anselmo Yanomami, da Associação Hutukara, explicou ao grupo o trabalho da associação e a gravação do CD de cantos Yanomami: “foi criada em 2004, gravamos o CD dos cantos Yanomami, projeto financiado pelo PDPI. A Hutukara foi criada pelo povo Yanomami, saiu da nossa cabeça. Anos atrás tinhamos dificuldades de lutar porque não tinhamos nos organizado. Hutukara quer dizer planeta, povo que é feliz, a riqueza, paisagem da natureza. A primeira assembléia de criação foi em 2004. A sede é em Boa Vista e abrange toda a Terra Indígena Yanomami, inclusive o pessoal de Maturacá. Essa é uma tecnologia nova para nós, estamos ainda aprendendo.
“Gravamos um CD junto com Marcos Wesley, conversamos na comunidade, depois de muitas reuniões a comunidade decidiu gravar o CD, financiado pelo PDPI. Foi o primeiro projeto da Hutukara.
“Nosso objetivo era a divulgação da tradição musical dos Yanomami, nosso objetivo de gravar é mostrar que também temos nossa própria música . Na história se fala que o Estado de Roraima é o pior, porque ali só vive garimpeiros que trabalharam na corrida do ouro na Terra Yanomami, então sofremos muito preconceito. Por isso fizemos o CD, para mostrar a todo mundo. Muita gente está contando nossa história errada, divulgando para as escolas, então decidimos fazer nosso próprio CD para mostrar nossa realidade aos alunos e todos. Se não mostrarmos nossa cultura de verdade, os brancos é que vão contar, e vão mentir sempre.
“Aprendemos nesse primeiro projeto, fomos assessorados pela CCPY, nossa aliada, hoje ISA Pró Yanomami. Fizemos reuniões discutindo por quê íamos gravar. Na festa para gravação alguns cantores ficaram com dúvida, perguntaram por que iamos gravar esse cd? Depois de morrer a voz dele vai continuar ali? Vai! Aí voltou tudo para trás. Para os Yanomami, quando uma pessoa morre, todas as suas coisas tem que se acabar junto com ela. Então o canto teria que ser retirado ou continuar. O projeto ficou parado dois anos porque tivemos dois óbitos de cantores que colocaram suas músicas nesse CD. A comunidade não aceitava mais, não queria mais o CD, depois de conversar tiramos os cantos que eles tinha ali. Mas continuou a pergunta. Nossa ideia era fazer 2500 copias para doar a escolas indígenas e não indigenas, com o objetivo de orientação aos professores para servir como material didático aos alunos. Algumas comunidades estão indo no caminho errado, falando português, nós não queremos isso, queremos continuar usando também nossa própria lingua quando estamos na aldeia.
“Tivemos também uma experiência na radio FM Monte Roraima, nos convidaram a fazer um programa semanal, todo sabado gravávamos e o programa era transmitido para a região, falávamos da associação, dos nossos trabalhos. Nesse programa também tinha música, cinco linguas diferentes eram faladas, com tradução, contando a origem do nosso povo. Sofremos muito preconceito hoje por causa da questao da Raposa Serra do Sol e os fazendeiros. Fomos combatendo isso através desse pequeno programa de 10 minutos todo sábado.
"Mas nesse CD ainda não foi muito bom, eles só cantaram, não viram a organização, a montagem da gravação. No programa da rádio eles participaram de tudo, acompanhavam todo o processo e aprenderam. No CD o branco nos ajudou, colocou o microfone, gravou e pronto, não pegamos nenhuma experiência.”

Anselmo distribuiu a cada grupo um exemplar do CD de música Yanomami, houve confraternização geral, cumprimentos e aplausos estendidos, todos gostaram muito dos presentes.

Yapariwá Yudjá: “a música de vocês é cantada só naquele momento, ou é sempre a mesma música, na sequência, cada sequência a cada hora do dia? Alguns povos cantam aquela música só naquele momento, depois não cantam mais, cantam outras. Como é a de vocês?

Anselmo Yanomami: “essas músicas do CD não vão ser as mesmas músicas que vão ser cantadas na próxima festa. Cada festa tem suas músicas, criadas pelos próprios cantores durante a festa. Se gravarem de novo, podem repetir algumas mas podem cantar novas também. As músicas são cantadas por 20 ou 30 minutos depois muda, e durante a festa os cantores vão criando as musicas. Eles mesmo vão criando entre eles e cantando ao público.”

Sobre a questão do que fazer com o material gravado pelas pessoas que faleceram durante a gravação, Anselmo respondeu: “perdemos duas pessoas enquanto o CD estava em processo. Quando isso ocorreu a comunidade desistiu do CD, queria acabar tudo. Depois de muita conversa decidimos tirar as músicas das falecidas. Mas ainda assim ficou a pergunta: e depois que já estiver pronto e morrer outro? O que faremos? Até hoje ainda não definimos como isso vai ser. Todos concordaram em fazer o CD para divulgar nossa música. Concordaram porque dissemos que iríamos distribuir para as escolas, organizações indigenas, que isso vai estar longe da aldeia, as pessoas não vão ouvir a voz da pessoa falecida. Mas ainda não saiu uma decisão.”

Higino Tuyuka apontou uma questão importante comparando a gravação do CD com o sangue Yanomami depositado em laboratórios americanos: “eu vi no filme ontem sobre vocês, a mesma preocupação sobre o sangue dos Yanomami que algum americano louco veio coletar, chamado cientista. Coletou sangue de vocês, depois no laboratório fez exames, o estudo dele acabou, e agora os Yanomami querem que esse sangue coletado que está na universidade seja devolvido. O sangue ainda continua lá, vivo, vocês querem que o sangue seja enterrado, jogado no rio, diluído, o povo vai reunir e chorar.
"Quando a pessoa canta e morre, ela leva a voz dela junto. Vocês têm essa cultura milenar. Mas agora vocês rompem, dão uma abertura para que essa música seja ouvida em toda parte. Com isso, vocês não estão dando abertura para todo mundo? Por que hoje vocês reclamam que o sangue deve voltar, se agora deram abertura para que o canto gravado por uma pessoa morta seja ouvido por todo mundo?
“As pessoas são conscientes que aquela música é do individuo, quando ele morrer tem que morrer porque isso vai trazer tristeza para a família, vão sofrer ouvindo isso, acredito que isso está certo, mas agora, quando a gente é estudante a gente é meio maluco, quer abrir tudo, às vezes quebra regra, quebra tudo. Às vezes desobedecemos regras porque estamos no mundo envolvente, entre acadêmicos, estamos na universidade, tudo isso influi muito na vida do estudante, aí você consegue convencer, e isso quebra o aspecto mais cultural.”

Anselmo Yanomami: “sobre a comparação entre o sangue Yanomami e o CD. Davi Kopenawa fala nesse filme, sobre a devolução do sangue. Nosso costume é esse mesmo, de acabar todas as coisas que são feitas por uma pessoa falecida. No caso do sangue, era o primeiro contato com o branco, não tínhamos conhecimento do que estavam levando de nós. Quando ficamos sabendo que os americanos tinham levado nosso sangue, foi o maior susto, ficamos sem saber o que fazer. Depois de muitos anos ficamos sabendo que o sangue estava em uma universidade nos Estados Unidos. Com o CD já é diferente, porque o próprio povo está se reunindo para discutir o que vão fazer e por que estão produzindo."

Aproveitando a deixa, o inspirador professor Higino aprofunda a crítica sobre o impacto do mundo acadêmico na geração jovem indígena: “hoje em dia entra o mundo acadêmico no meio da gente, favorece muita coisa, aí parece que o estudante é o conhecedor de tudo, isso acontece em qualquer sociedade, quando você mergulha nesse mundo de conhecimento acadêmico e tecnologia, parece que se sente como se fosse um pajé, outro tipo de pajézinho que nunca teve formação, se formou entre 4 paredes. Professor bom ou mau, você sempre acaba conhecendo alguma coisa. Quando você conhece o mundo te abre, mas um mundo diferente do que o da sua cultura.
“O mundo acadêmico engana, vive brigando 'eu sou acadêmico, aquele não sabe nada, posso escrever melhor do que o sábio porque conheco as técnicas, metodologias de pesquisa', mas não conhece as práticas de conhecimento, as convivências que o conhecedor tem, então aproveita do que ele sabe para ter informação e depois se sente superior àquele, apenas porque sabe ler, escrever, entender os conceitos criados pelo branco.”

APRESENTAÇÃO KOTIRIA

Na sequência, os Kotiria e a pesquisadora Janet Chernela apresentaram seus projetos. Joselito Kotiria começou com uma fala geral sobre os Kotiria e sua trajetória: “O povo Kotiria vive no alto Uaupés, na Colômbia e no Brasil. Temos dois projetos na comunidade agora, projeto PDPI de registro de danças tradicionais e projeto de documentação linguística (http://ct.socioambiental.org/taxonomy/term/110). Fizemos encontros na escola e a oficina com o ISA e começamos a refletir.
"Fomos alunos, estudamos em Iauaretê, minha preocupação não era valorizar minha cultura, como professor vi que os alunos nossos estavam desvalorizando. Poucos velhos possuem ainda esses cantos e danças. Pessoal vinha a Iauaretê, São Gabriel, a comunidade começou a ser esvaziada, as pessoas procuravam viver melhor. Dessa preocupação surgiu a ideia do projeto, porque nossos costumes e tradições ainda estão vivos conosco. O objetivo principal dos projetos é levar o ensino da nossa cultura para dentro da escola. Criar material didático e deixar na escola.
“Pensamos também em envolver alunos, ao mesmo tempo estudando em sala de aula e fazendo atividades. Assim ganham um pequeno recurso para se sentirem incentivados a fazer a documentação. O projeto foi aprovado e hoje estamos aqui, ainda começando. Não temos ainda material pronto. Participando da oficina que realizamos, vimos que os jovens alunos começaram a se interessar e estão se organizando para fazer cerimônias, apresentam aos pais. Todos os projetos que temos são ligados à escola, a escola é o que vai valorizar a nossa cultura.”

Roberto Kotiria é o coordenador do projeto PDPI Kotiria, e falou um pouco sobre as atividades previstas: “a primeira atividade que realizamos foi uma oficina para construção de maloca, de acordo com a arquitetura ancestral Kotiria, em julho de 2008, juntando várias comunidades Kotiria e escola. Almir de Oliveira foi quem coordenou a oficina. Segunda atividade que realizamos foi a construção da maloca em si, com base na maquete elaborada durante a oficina. Agora estamos prevendo fazer a primeira cerimônia em julho, e vamos começar a filmar. Outra atividade foi a viagem para buscar o caapi, um ingrediente importante para nós. Fomos buscar na comunidade Belém, na Colômbia, ficamos uma semana lá, eles entregaram o caapi. Durante a realização da cerimônia queríamos tomar o caapi. Eu levei os bagaroá dançarinos, chegamos em 12 pessoas, 6 bagaroá e 6 mulheres. Retornamos à comunidade e o pessoal ficou alegre.
Para o registro das cerimônias compramos filmadora, camera fotográfica, CD, DVD, computador. Depois disso fizemos uma oficina de 20 dias junto com os alunos bolsistas sobre técnicas de registro audiovisual, para aprender a mexer no equipamento; hoje os alunos estão aqui filmando, treinando o que aprendemos durante essa oficina.”

Joselito Kotiria: “feitas essas atividades, pensamos sobre a distribuição do material. O material era para ser distribuído para as escolas e comunidades Kotiria na Colômbia e Brasil. Daí surgiu a discussão sobre o banco de dados da Kristine [Stenzel], uma parte do material queremos colocar na escola, outra parte no banco de dados. Futuramente pensamos em ter internet, antes não sabíamos onde ia parar as coisas no CD, mas o nosso objetivo é distribuir e ter como material didático nas escolas.
“Nossa cultura está viva, as pessoas gostam do trabalho da escola, todas as atividades que fazemos são divulgadas, os alunos, velhos, sabedores todos participam dos encontros, estamos em conjunto levando. Eu não estou fazendo projeto sozinho. O perigo agora é onde vai parar esses trabalhos. Vamos precisar criar as nossas normas para ter o nosso material. Mas tem também outros materiais feitos pelos antropologos que andaram com a gente, nós vamos chegar perto, ter esse acesso, coletar tudo que pertence ao povo Kotiria.
“O projeto de documentação linguística pretende documentar a linguagem, como os velhos, as crianças conversam entre eles, e o princnipal objetivo é fazer material didático de gramática Kotiria, que já está quase pronta, já fizemos 5 oficinas desse projeto. Os alunos aprendem a ler e escrever na lingua; antes os professores eram Tukano, não entendiam nada, agora o professor precisa saber falar nossa lingua. Apenas de 5a a 8a começa a educação bilíngue.
“Queríamos apresentar a Janet, estamos juntos agora que conhecemos ela pessoalmente, pedimos que ela colabore conosco. Ela vai fazer outras oficinas com a gente, estamos alegres de ter uma antiga parceira nossa perto de novo.”

A pesquisadora Janet Chernela contou um pouco de sua trajetória na região e sua disposição em colaborar com os Kotiria nesse movimento de revitalização cultural: “essa reunião parece uma coisa pré-histórica, o Joselito não tinha nem nascido quando cheguei na aldeia dele. Incrível como o tempo voa. A primeira viagem que fiz foi com o Pedro de Jesus, pela Oxfam, no ano de 1978. Cinco anos antes, em 1973, foi o ano de aprovação do Estatuto do Ìndio, onde foi colocada a tutela sobre os índios. Desde essa época era garantido o direito dos índios a suas terras. Fomos registrar as terras e o que aconteceu? Nada. E agora temos esse tipo de reuniao. O que mudou? Houve uma época de desvalorização que durou muito tempo e agora foi tirado das mãos das pessoas de fora o poder de decisão na região. O poder de decisão agora está com os indígenas na área.
O poder do indígena na região e o poder da internet pode ser um casamento forte, porque se pode entrar em contato com qualquer pessoa pela internet, a qualquer hora. Isso é uma grande vantagem. Além disso, é possível colocar tudo em um banco fechado, destinado a algumas pessoas. Sobre essas ideias tenho as seguintes sugestões como pesquisadora pensando nesses assuntos, depois de ter vivido em uma aldeia Kotiria.
1. Cada pesquisador que chega precisa escrever uma proposta e ter autorização. Quem recebe essa proposta hoje são as autoridades governamentais, Funai. Seria importante vocês mesmos receberem as propostas e decidirem sobre quem entra ou não. Agora com a Foirn poderia ser fácil.
2 Definir o que quer dizer colaboração, autoria. O que pode ser coletado, todas as coisas, sagradas ou não? Se há coisas que estão fora dos limites das pessoas aqui, isso tem que estar bem claro. E quais são os direitos de uso para fins comerciais? Permitidos ou não? São negociáveis?”

Adriano Tariano, chefe da maloca do clã Koivathe, em Iauaretê, comentou a respeito da negociação para conseguir o caapi nas comunidades: “eu fui criado pelo meu avô, Pira-tapuia. Fizemos intercâmbio cultural em Pira-paraná, Colômbia, eu tinha negociado caapi para trazer porque nós não temos também. O que me disseram é que isso não é negociável, porque ali eles receberam todo o caapi, não é algo que se compra, as pessoas receberam na veia lá. E como a gente faz? Onde os Kotiria andaram foi fácil negociar?

Joselito Kotiria: “na verdade não era o caapi, era um tempero para ser misturado. A gente tem o caapi nosso, mas faltava o ingrediente de tempero para ser misturado. Entao pensamos em fazer esse resgate, conversamos com o pessoal na Colômbia, e o pessoal entendeu, porque antigamente os povos indígenas se respeitavam entre cunhados e tios, avôs, trocavam filhas, fizemos negociacao tradicional que queríamos fazer, eles entenderam, mas eles não deram só esse ingrediente, eles deram 5 caapis diferentes, caapi de trovão, caapi de benzedor, caapi de dançarinos, caapi de cantor. Agora estamos assustados com isso também, mas estamos organizando como vamos fazer isso. São coisas respeitadas. As danças são ligadas ao caapi. Temos que nos preparar antes de tomar, temos que fazer restrições.”

Higino Tuyuka: “Janet, você comentou sobre ter direção sobre colaboração, autoria. Já vimos discutindo isso há tempos, vimos fazendo gestão do conhecimento, queremos que nosso conhecimento seja gerenciado por nós, esse é o nosso pensamento, para que tenhamos autonomia sobre nosso conhecimento.
“Temos formalizado intercâmbios de experiência entre escolas, cada projeto tem preocupação em fazer intercâmbio cultural educacional, para a escola Kotiria tem preocupado interagir através da bebida ayahuasca, dentro da cosmologia deles. Hoje em dia a escrita favorece muito, mas para conseguir mergulhar na essência da vida cultural, precisamos de ingrediente, de elementos que possam dar uma visão espiritual, através dos efeitos do caapi que abrem o sentido, percebem mais nítidos, concentrados. Não estamos conseguindo fazer isso pela distância, nossos conhecedores tem dúvidas: 'será que liberando esse conhecimento vamos favorecer ou estragar?' Desde que a pessoa tenha se preparado, dá para fazer, depois que toma, come ipadu, fuma, se não obedecer certas regras ele mesmo vai se prejudicar, vai enfraquecer e naturalmente vão atribuir isso ao grupo que lhe ofereceu o caapi, dizendo que sopraram, benzeram mal, devemos ter cuidado com isso.
“Vou pedir um espaço na Semec para acompanhar esse proceso com os Kotiria. Assim que vamos fazer intercâmbio. Você falou bem, há tempos atrás tinha um espaço que ninguém pensava isso, todo mundo queria ser padre, eu mesmo queria ser salesiano para cuidar das crianças, quando era pequeno. Hoje em dia, voltamos novamente a sentir animados."

Janet Chernela: “uma das coisas que aconteceu foi que em 1988 surgiu a Constituição. É importante poder usar a lei agora para se proteger, interpretar a lei de uma maneira vantajosa, para não ficar sem sentir o poder que existe, é muito bom usar o poder.”

Higino Tuyuka: “eu era a favor dessa tecnologia chegando na comunidade aqui no Rio Negro, mas é muita burocracia, quem manda aqui é Exército. Isso não permite que tenhamos acesso, dificulta. Nossa ideia era ter uma rede de internet para se comunicar, em todas as escolas. Até hoje não conseguimos porque não temos poder. Lá nos pelotões só eles tem internet. Não estão a favor da internet porque sabem que rapidamente vai ter comunicação, e têm medo de que nós vamos nos comunicar com guerrilheiro aqui na fronteira, essa é a paranóia. Não sei se há possibilidade de não se comunicar com a Colômbia, no mundo da internet não dá para construir um muro como fizeram os chineses.”

Janet Chernela: “sinto falta de poder quando entro na internet, porque é muito grande e dificil, no começo, mas pouco a pouco aprendemos. A internet é uma força democratizante, ela tem essa capacidade, mas é inútil se você se sente perdido, por ser tão grande. Precisamos dominar a tencologia, e integra-la com suas necessidades, usar da maneira apropriada.”

Renato Matos Tukano, diretor do projeto Pontão de Cultura na Foirn: “a respeito da entrada de pesquisadores, aqui na Foirn fizemos uma oficina direcionada a pesquisadores e criamos regras, achamos essencial ter essa ferramenta de controle da entrada de pesquisadores. No contato com um pesquisador que pretende ir à área, perguntamos da parte de quem ele vem, se é do governo, particular, empresário, universidade, qual o interesse, tem que mostrar o resumo do projeto, objetivos, e o que a comunidade pensa em cima disso, qual o ganho cultural, moral, politico da comunidade com o resultado da pesquisa daquela pessoa ou instituição. Também vimos o valor do projeto, e o produto da pesquisa, se saiu livro, CD, imagem. Toda vez que pesquisador vem, seja nacional ou internacional, pede permissão para a Foirn, ela dá declaração e encamina à Funai, que dá seu visto. Se é estrangeiro encaminha à Policia Federal, e depois é liberado para entrar em área dentro do período estimado de permanência. As pessoas conscientes disso sempre procuram a gente aqui para tirar essas licenças.
“Outra coisa que estava percebendo desde ontem e hoje, com a colocação do Higino, estamos discutindo um encontro da tradição cultural com a tecnologia. A tecnologia tem avançado bastante, em 78 eu era adolescente, para mim a datilografia era sofisticadíssima. Mas percebemos que a tecnologia avança, de 10 em 10 anos troca tudo, os botões são diferentes, se não atualizar se perde. Então quando se fala em divulgar, divulgar minha imagem, minha beleza ou feiúra, tenho a minha finalidade de buscar namorada, viuva, tenho um interesse em divulgar meu personal.
“Eu sou Tukano, seu Adriano é Tariano, tem vários clãs, superiores, intermediários, inferiores, escravos. O parente reconhece quem sou eu, nós entre nós sabemos. Tem algumas especialidades de cada clã também, tem clã dos bayás, cantores tradicionais, cantores de festa e brincadeira, carrissu, que também vem dos ancestrais. Se queremos divulgar como o Joselito e Anselmo colocaram aqui, para que o mundo conheça quem somos nós, o branco para reconhecer se sou índio Tukano, ele vai me certificar se eu realmente sou e posso manifestar minha cultura. Faz afirmação divulgando para o mundo conhecer, quem somos nós, em que grau de desenvolvimento estamos, o respeito que merecemos, aqui em São Gabriel estamos bastante desenvolvidos, mas o que se deve trabalhar aqui é a conscientização dos parentes. Já que estamos vivendo o mundo moderno, embora distante dos desenvolvidos, temos necessidade de registrar o que ainda tem. Tem muitos conhecimentos, mas está tudo retalhado em pedacinhos na cabeça de cada um dentro dos seus clas, aí entra a palavra revitalizar ou resgatar.
“A técnica que o homem branco trouxe uma parte nos ajuda muito, de outro lado os maus elementos nos prejudicam também, pois tem que saber dividir as coisas. Por exemplo, conseguimos o resgate dos ornamentos sagrados, está aqui na Foirn através da associação Cercii. Para nós aquilo é uma relíquia, não sou mais praticante, mas pela história sei que meus pais praticavam, aquilo me faz fortalecer o sentimento de pertencer àquela civilização, àquela cultura, isso dá a sensacao de lagrimar ao ver o que passou. Para isso serve. Por outro lado, praticar isso é diferente, esses ornamentos não são a toa, entram em benzimentos para bem ou mal.
“Até aqui ninguém se preocupou no treinamento para combate dos Tukano, combate físico, como se capacitava seus jovens antigamente. Nenhum Tukano falou nisso ainda, tentar resgatar isso, deixar o jovem pronto para combate, são coisas que estamos deixando escapar de nós. Só vai ficar na lembrança, nas palavras.
“Vejo o exemplo dos negros, o samba p.ex., tem escola de samba, samba não é ensinado no ensino fundamental, no ensino médio, tem escola especifica para samba, lá a familia que se interessar aprende, daí em diante dependendo da vontade sai o artista. Tem escola de judo, de tudo, o branco se organizou assim, não está no curriculo da escola, como matéria, mas tem escola específica para aquilo. Que tal se a gente se organizasse melhor? Uma escola de carrissu, em um bairro de São Gabriel, uma escola de dança de capiwaya dos Tukano e Tuyuka. Para acontecer isso precisaremos conscientizar bastante, que na escola se deve aprender a teoria daquilo, e na escola específica entra na prática. Esse pode ser o caminho do futuro para manter a dinâmica das danças tradicionais.
“Claro que a tecnologia tem que estar presente, pois ajuda muito, vejo grandes atelas, jogador de futebol, depois do jogo eles assistem os passes que erraram para não repetir no outro jogo. Se temos a tecnologia ajudando, eu vou ver meu passo de capiwayá, se errei aqui, vou poder consertar. Se sou filho de clã conhecedor especialista naquele assunto, meu pai me ensina desde pequeno, minha linguagem é em cima daquilo. Branco Dizem que aos 18 anos o jovem ganha maioridade, entre nós não temos idade, mas tem o tempo do retiro dos jovens, depois que voltam tem caxiri, festa, a mãe do rapaz entra e faz discurso entregando o filho que ela criou nas mãos dos pais e entrega para a sociedade, sai da responsabilidade dela.
“Para fazer resgate cultural a tecnolocia ajuda muito, mas devemos ter cuidado para divulgar na internet para que qualquer um acesse, a pessoa não sabendo nada vai dizer “isso não tem graça”. Mas deve ter alguém que queira aproveitar disso para fins comerciais. A internet ajuda tambem a gente ver a rapidez da comunicação, alguém usa a imagem do Rio Negro, acaba sabendo rapidamente, depois vem processo. Acho melhor acertar e organizar como vamos divulgar e quando surgir problema como vamos superar essa dficiuldade, ganhar causas.”

Janet Chernela: “o mínimo seria colocar as regras de trabalho na região numa página na internet, deixando as coisas claras e um endereço eletrônico com perguntas. Isso funciona como se fosse um contrato, pode funcionar como um ponto de referência, se alguém desobedecer as regras, podemos mostrar depois, teremos o histórico de comunicações.”

Encerrada a apresentação dos Kotiria, fomos ao almoço. À tarde, os Tariano e Tukano de Iauareté apresentaram o projeto de registro da Cachoeira das Onças como patrimônio imaterial no Iphan, e os Desana apresentaram o projeto Bayawi de resgate da língua Desana.

APRESENTAÇÃO TARIANO E TUKANO: CACHOEIRA DE IAUARETÊ

Adriano Tariano, chefe de maloca do clã Koivathe, do povo Tariano, fez a apresentação sobre o trabalho de registro da cachoeira de Iauaretê como patrimônio imaterial no Iphan.

Adriano Tariano: “Para comecar queria fazer explicacao da historia da origem do mundo dos Tariano, como se principiou o clã Koivathe e Okomi. No começo, quando não existia nada, o único que existia era deus trovão, segundo nossa versão. Deus trovão tinha seus primos, estrelas, ventos, raios e temporais. Ele tinha todos os enfeites do cantor, era ornamentado, dali que surgiria toda a natureza. Primeiramente ele vivia com os primos, lua, sol, tempestade. Ele resolveu criar alguma coisa, fazer um trabalho. Ele tinha um banco de vida, ipadu de vida, e cigarro de vida, com isso ele fazia criação para surgir a humanidade e as criaturas no mundo. Ele pegou cigarro de vida, sentou no banco e comeu ipadu. Ele fumou, a cinza do cigarro caiu e formou-se o mundo. Fumou, a saliva caiu e foi transformando água em igarapé, rio e mares. Ele pensou em fazer a primeira pedra, estava cheio de ornamentos, ele tirou o chocalho, jogou no rio, transformou em pedra, essa foi a origem dos Tariano. Ele usava brinco também, de várias cores, jogou o brinco no rio, transformou-se em peixes do igarapé, rio e oceanos. Tudo deu certo, vão favorecer para as futuras gerações. Pegou pena de periquito verde, jogou e se transformou em mantas enormes, por isso dizemos que a mata é verde. Por último ele pegou a pedra branca do dançarino, e criou as praias, desertos e montanhas. As primeiras criaturas foram a gente pedra, depois surgiu nosso ancestral, que se chama Okomi, o avô dos Diroá. Acontece que Okomi tinha vários inimigos, ele era o único que defendia o surgimento dos humanos. Ele foi uma pessoa libertadora. Tinha uma massa de gente contra Okomi. Ele vivia na casa dele sozinho; ele tinha um avô que chamava caba grande. André, vem contar pra nós o seu sonho de novo.

André Martini (ISA): “seu Adriano sempre me pede para contar esse sonho. A primeira vez que estive em Iauaretê, estavam ensaiando o capiwaiá, dança com o bastão, o ensaio foi até tarde, teve caxiri, estava no hospital antigo que os padres construíram, morava sozinho lá. Sonhei esse tipo de sonho que parece que você está acordado: eu estava de bruços na rede, e sentia um barulho de asa atrás de mim, não via quem era mas eu sabia, e isso sentava nas minhas costas, eu espantava e falava 'sai avô', e sabia que era o caba, mas eu não tinha medo. Na terceira vez ele sentou nas minhas costas e parecia que estava embaixo da minha camisa, mas quando eu pus a mão ele estava embaixo da minha pele, fiquei um pouco assustado, acordei e essa região do meu corpo estava dormente.”

Adriano Tariano: “dessa pedra que deus trovão criou-se o Okomi, e ele tinha os inimigos, a gente onça. Iauaretê é a cachoeira das onças. Okomi foi caçado pelas onças, elas queriam acabar com ele. Lá no Cruzeiro [bairro de Iauaretê] ele ficava, nós chamamos a casa de Okomi. A igreja chamou de santa cruz. Fiquei contrariado porque a igreja tinha que consultar as pessoas que principiaram a morar no lugar. As onças foram falar com o caba grande, avô do Okomi, eles diziam 'vô, como o seu neto não sai, só fica em casa, diga a ele pra sair'. 'Vocês mesmos vão lá falar com ele', disse o avô. De repente, eles vão atacar o Okomi, para que não haja a humanidade. Surpreenderam o pobre do Okomi com seus poderes, as onças eram invisíveis, tinham poderes. Amarraram ele e foram jogando por aí, ele se fingia de morto, onde ele foi jogado tem cacuri, pedra sagrada, matapi, caiá, onde os tariano vão buscar alimentos para os filhos. Nós temos 17 estações, significa que ele foi herói na vida para libertar o povo tariano. Okomi, depois das 17 estações, deixou a arma dele, o bastao, e morreu. O lugar onde ele deixou a cabeça dele está entre duas pedras, hoje dá para ver a cabeça dele que é uma pedra. As onças ficaram contentes, agora nós somos donas de Iauaretê. Dali em diante celebraram, 'o mundo do indigena já acabou', convidaram os amigos para comer o inimigo, sangue, carne osso tudo. Dali chega o caba grande para comer, pegou o dedo mínimo e a pretexto de espantar uma mosca, jogou o dedo para o céu para livrar o seu neto, aí deu estrondo. 'Quem deixou escapar?!' 'Eu não', disse o avô, 'eu sou caba, eu lambo sangue, carne, sou o maior devorador'. Ali Okomi já estava livre dos inimifgos, e surgiram os três Diroás, conforme as três falanges do dedo mínimo. Para os tukano são apenas dois Diroás. Eles foram crescendo, vingaram e acabaram com as onças. Fizeram muita besteira, eram mulherengos, faziam filhos, por isso os Tariano são mulherengos. Foram até Ipanoré para serem pajés, eram os donos dos peixes. Depois que mataram as onças, a missão estava cumprida, voltaram para o avô, deus trovão. Missão cumprida, agora vem as primeiras criaturas, Kui e Nanaio, os primeiros para acompanhar a humanidade. Todos os outros povos já estavam lá no Rio de Janeiro, no lago de leite. Os Tariano estavam atrasados porque tiveram que limpar o caminho. A cobra canoa já vinha e os Tariano estavam atrasados, lá em Iauaretê Kui e Nanaio estavam prontos. Quando o pessoal chegou encontraram cigarro, a forquilha que representa a vagina da mulher. Mostraram para deus trovão. De lá do céu tinha uma zarabatana. Foram de zarabatana encontrar os outros povos no lago de leite, estavam atrasados, sentaram juntos no mesmo banco, e viajaram na cobra canoa. Daqui pra cá já vem a humanidade. Okomi defendeu a humanidade.” (vejam artigo sobre propriedade intelectual ligada à mitologia do Uaupés em http://ct.socioambiental.org/iauarete. Este artigo integra o dossiê Iphan sobre o registro da Cachoeira de Iauaretê)

Na sequência foram apresentados trechos do filme “Iauaretê – Cachoeira das Onças”, produzido no âmbito do projeto do Iphan de registro imaterial da cachoeira. Depois abriu-se a discussão sobre o resgate dos ornamentos sagrados do museu do indio em manaus, mantido pelos salesianos. Essa parte da conversa foi relatada por Laureano Tukano.

Laureano Tukano: “fizemos um projeto PDPI com Renato Athias, que sempre nos acompanhou. Recebemos recursos de 150 mil reais e começamos a levantar a maloca, agora está funcionando em Iauaretê nossa maloca da CERCII. Lá aprendemos dança, benzimento, damos instrução, contamos história, vamos escutando um do outro. Tudo o que a gente tinha foi destruido, acabou, as pessoas não queriam contar, nossos avós já morreram, começamos a aprender a língua brasileira. Eu não conhecia esses ornamentos que conseguimos agora, conhecia só a história. Porque os missionários destruiram nossa cultura. Meu finado pai dizia 'os padres não gostam, é coisa diabólica, não presta'. Ele não queria mais ensinar para mim. Era difícil renovar. Ficamos pensando como fazer. Conhecemos Ana Gita, André [Martini] e outros que ajudaram. Missionários não entendiam nossas coisas, por isso chamavam de diabólicas. Resolvemos ir ao museu para ver os ornamentos, isso foi uma coisa grande. Eu estava pensando, 'meu pai está aqui, faz tempo que morreu, mas tudo dele está vivo aqui', por isso fiquei bravo, sentido contra os padres.”

Adriano Tariano: “complementando o relato do Laureano Tukano, do clã Oyé, visitamos o Museu do Índio [em Manaus] e discutimos de quem seriam os ornamentos. Lá dizia que era tudo Tukano, entao não deu para identificar de qual clã ou subgrupo pertenceriam. Conseguimos tirar de lá e trazer para cá para guardar. Os ornamentos não são dos Tukano, não sei de quem seria, do rio Tiquié, Papuri, Rio Negro, então seria de todos os Tukano. Temos conversado com a Foirn, eles estão apenas guardando, se eu for emprestar deles, tenho que pedir autorização para a CERCII. Esse ornamento não é do clã Oyé dos Tukano, é de todos, ninguém sabe, por isso eles vão guardar na maloca da CERCII, qualquer um de nós pode emprestar. Não tem dono, é de todos.”

Renato Matos Tukano, coordenador do projeto Pontão de Cultura da Foirn: “esses ornamentos que foram repatriados do Museu do Índio estão aqui, a Foirn está com eles, fizemos uma exposição do material, confeccionamos vitrines para deixar para visitação, organizamos em etiquetas de identificação com material usado no ornamento. Ficou nas vitrines, fizemos uma agenda de visitação pública. Durante a antiga diretoria da Foirn, da qual fiz parte, tínhamos o plano de deixar aberto às escolas para criar uma agenda de visitacao dos alunos, para despertar interesse deles nos ornamentos que foram levados do Rio Uaupés. O que Laureano e Adriano já explicaram é que não dá para determinar de que clã são os ornamentos. Tradicionalmente os Tukanos nunca foram fabricantes de ornamentos, eles trocavam com outras tribos especialistas em fabricar ornamentos, como como os Tuyuka. Isso era comprado, benzido, espiritualizado para depois ser usado em cerimônias. Também não posso dizer que pertence ao meu clã, porque ornamentos foram feitos para todos, tanto dos clãs superiores como dos inferiores. Sei dizer pelo meu pai, que os missionários levaram o baú do meu avô, com ornamentos completos, em troca deram um calção, camisa velha. Diziam que não tinha serventia, o que era bom para a humanidade era ter fé em Deus, acabaram esquecendo das outras coisas, diziam que a felicidade vinha só depois da morte, isso foi uma lavagem cerebral dos nossos antigos pais e avós que ainda praticavam muito. Até aqui só podemos dizer que os ornamentos são identificados como de uso dos Tukano há 80 anos atrás. Para nós, isso é considerado relíquia, o tempo deixou as peças frágeis, minha opinião pessoal é que tem grande utilidade manter elas na vitrine como exposição, para as pessoas que tem vontade de saber um pouco mais sobre a cultura indigena. Os ornamentos são usados por várias etnias, no passado eram trocados, negociados entre as tribos, era preciso pagar um preço, era trocado por mulher, por espingarda, por motor, os Tukano compravam para ter. Essas relíquias servem para todos, dá para ver sem adulteração o original, que foi usado pelos nossos avós. Para fins de uso pelos os dançarinos atuais, minha recomendação seria não utiliza-las, porque estão muito frágeis. Poderíamos fazer réplicas delas ou encomendar ornamentos novos, com material resistente, por mais que tenha cuidado nas festas, o material tem que ser resistente. A Foirn vai entregar novamente para a CERCII, que teve a iniciativa de buscar essas lembranças antigas, vamos precisar orientação de especialistas em lei para resgatar mais coisas que ficaram lá. Sabemos que nossas coisas estão em outros museus como o Emilio Goeldi em Belém. Precisamos repatria-las tambem, argumentarmos que somos herdeiros legítimos daquilo que está lá, os missionários levaram a troco de nada, usando somente o nome do famoso Jesus Cristo. Por isso merece ser devolvido para os verdadeiros herdeiros deles.
“Vamos embarcar esses ornamentos para chegar em Iauaretê, isso é importante porque lá é o berço da civilização Tariano e Tukano, lá tambem tem um aglomerado maior dos Tukano, com a presença de quase todos os clãs, embora tenhamos perdido alguns clãs, uns porque não tiveram mais fihos homem, outros porque migraram para outras regiões. Mas quem ainda está lá tem histórias vivas na mente.
“A tradição cultural, os mitos e histórias são complexos, cada clã tem sua versão, um debate com o outro, se não sabem dialogar, entram em atrito até mesmo físico. Discutir cultura, se não souber levar, cria desunião, desestabiliza a irmandade dos grupos. O que se busca até hoje é um consenso entre nós para caminharmos com pensamento unido e fortalecido. Infelizmente, depois que fizemos a exposição, em seguida teve a posse do prefeito Pedro Garcia, o grupo que organizou o cerimonial, no dia da posse, usou os ornamentos originais para passar o bastão de comando. Tomaram emprestado, no momento parecia certo, mas hoje vemos que nós erramos. O combinado era devolver nas vitrines como estava, mas demoraram a entregar, quando assumi a coordenação do Pontão comecei a buscar os responsáveis. Um dia vieram devolver os ornamentos em uma caixa de papelão, sem devolver nos mesmos lugares. As vitrines agora estão vazias. No momento não dá para ver a exposição, pedimos desculpas, vamos fazer uma reunião da diretoria para conversar sobre a destinação dos ornamentos para a maloca da CERCII. Gostaria de ter o bom entendimento com os responsáveis por esse trabalho, achamos que não é hora de nos lamentar, vamos atrás dos nossos direitos de trazer nossas coisas de volta. E contamos com a ajuda de todos, organizações e governo, para superar essas dificuldades.”

Laureano Tukano: “está faltando muito material ainda. Faltou fazer assinatura para trazer o trocano que está no museu em Manaus, isso ficou fora da lista. Peço aos senhores que façam relatório para ver como vamos fazer. Essa é minha proposta.”

Adriano Tariano: “várias peças ainda ficaram no Museu do Índio, na última visita que fizemos, Laureano foi para pegar o trocano, o atabaque, tambor grande. Nos lugares sagrados dos Tukano, tinha um desses trocanos, o ancestral deles deixou lá. Os Tukano têm briga também, para registrar a cachoeira foi difícil, nós trabalhamos com várias etnias, tudo deu certo, mas entre os Tukano está havendo briga, existem os do Rio Tiquié, Uaupés, baixo Rio Negro, Papuri, um diz que pode, outro diz que não pode. É bom eles se unirem. Esse trocano é patrimônio dos Tukano, eles amam mais do que irmão, a madre diz 'nós temos vários advogados, se o Papa não permitir essas coisas não voltam, não vai ser resgatado', eu falei 'irmã, essas coisas foram trazidas em troca de algo especial?' Não, em troca de camiseta, calça. Agora querem que a gente vá atrás de advogado, do Papa. O Papa não foi pegar nossas coisas lá em cima! Tem que devolver tudo, fomos lá para trazer tudo, a irmã Isabel disses 'vocês estão deixando o Museu do Índio pobre', o Laureano respondeu 'vocês é que estão deixando nós pobres, trouxeram tudo que era sagrado, está aqui no museu, não é de vocês, e ainda cobram 5 reais para entrada'. Cobram por algo que não é deles.”

Fernando Mathias: “essa peça trocano não estava no meio das outras pecas quando foi feito o levantamento?”

Adriano Tariano: “o que está em cima no museu, em exposição, não foi retornado, apenas o que estava guardaod nas caixas. Elas não queriam entregar, devolveram apenas as peças jogadas, todas as peças boas ainda estão lá na vitrine, eles não querem ceder mais, por isso estamos assim.”

Laureano Tukano: “esse trocano que está lá, quando bate o trocano já sabemos o que vai acontecer na semana, pode ter dabucuri, festa, no segundo dia bate, terceiro dia bate, manda arrancar mandioca, fazer caxiri, trocano é para convidar a gente. Trocano não é feito do pau, é original, tipo mármore, ouro. Nunca vi, nunca conheci, dizem que tem.”

APRESENTAÇÃO DESANA

José Maria Lana coordena o projeto Bayawi, um projeto que pretende resgatar a língua Desana, que atualmente está em fase de extinção. Poucos velhos ainda falam a lingua, a maioria assimilou o Tukano como lingua geral, e está abandonando a lingua Desana. Esse projeto não se insere no âmbito das escolas indígenas, como acontece com o projeto dos Kotiria por exemplo, porque não há uma escola Desana. A metodologia escolhida pelos Desana para retomar sua tradição linguística foi a promoção de reuniões que tiveram o nome de “imersão espaço-temporal”, onde grupos distintos se encontram para discutir a língua e história Desana, fora do contexto escolar. José Maria Lana apresentou o projeto através de um powerpoint que está em ANEXO a este post (link abaixo).

José Maria Lana: “vamos reunir artistas, músicos, cantores que sabem ainda a língua Desana para participar desse projeto. Vamos gravar em fita cassete, depois vamos passar para CD. No segundo semestre de 2009 vamos comprar microfones e mesa de som para gravar melhor, a tecnologia da fita cassete é ultrapassada, chia muito, o computador não consegue equalizar o som. Tentamos gravar com microfone tipo de direção, mas quando a pessoa está tocando carissu, o cara tem que correr muito atrás da equipe de dança, não é adequado, vamos comprar um microfone que fica perto da boca da pessoa. Na gestão do projeto tem 2 pessoas, eu e meu auxiliar administrativo.
“Fizemos coleta de dados primários, com meu pai. Depois que voltei do servico militar meu pai já não falava mais Desana, porque seus companheiros que falavam já haviam morrido, então meu pai falava já Tukano. Houve também coleta de dados secundários, o livro 'Antes o Mundo Não Existia', o mapa livro, entre outros. Os resultados parciais: só 10% dos Desana falam a língua, e apenas de 50 anos para cima, por isso eu digo que a língua Desana está na fase de extinção. Dos jovens, nenhum fala.
“Fizemos um quadro com a evolução dos Desana, desde o começo do começo (http://ct.socioambiental.org/desana). Explicamos as gerações desde o surgimento da humanidade até a dispersão dos Desana nos rios Tiquié e Papuri, vivendo nas malocas, e na geração posterior já com as escolas, as organizações indígenas e a formação de grupos de lideranças, com a luta do movimento indígena pela terra. O periodo atual moderno agora é a geração 5 dos Desana, pensando em projetos de sustentabilidade, controle social, formação e pesquisa, tanto tradicional – e este projeto é exemplo disso – como técnica e cientifica, pensamos em ter nossos próprios antropólogos, como o Ivo Fontoura, que nos ajudou muito.
“Dentro do projeto fizemos encontro de articuladores Desana. Esses pensadores discutiram a melhor forma de escrever Desana, com assessoria de linguista. Fizemos a junção de consoantes de acordo com a fonética. O linguista usou metodologia de trabalho em que cada um podia escrever e pronunciar na frente de todos. Daí surgiu desentendimento, desafiaram um ao outro. Eles estavam quase brigando, aí o linguista indicou algumas opções que foram adotadas na escrita Desana.
“Os resultados parciais já incluem um CD de cantos. Dividimos os dois grupos, não estamos nos encontrando no mesmo espaço-temporal para não haver divergência de entendimento. Um grupo é de mestres de canto, não é pra benzer, outro grupo é de benzedores, benzer é a especialidade deles, cuidar do cigarro, ipadu, breu, benzer no parto, na fase de crescimento da criança.
“Temos um programa Bayawi que vai nos nortear para onde vamos seguir. Tem esses 10 parágrafos que colocamos antes de começar a escrever o projeto. Apresentamos para o Conselho Diretor da Foirn, e fizeram uma carta de recomendação que seguiu anexa ao projeto, aí o financiador acreditou que estávamos fazendo um trabalho sério.
“Os próximos passos é continuar com os espaço-temporais. Em Taracuá eles querem desistir porque não tem ninguém que fala Desana lá, e eles não querem importar alguém que fala de outra região, eles tem essa vaidade. Mas vamos continuar com gravação e transcrição da língua Desana, encontro de monitores e articuladores, compra de equipamentos de som, microfones sem fio, e edição e publicação da cartilha “ʉmʉkoɾi Mahsã Aɾã Maɾya”. Essa cartilha vai ser o condensado desse trabalho de 30 meses que vamos encerrar no Seminário de Sociedade Desana, que vai coincidir com a Semana dos Povos Indigenas em abril de 2010. nesse seminário pretendemos apresentar proposta para os governos, queremos construir um PPP para criar a escola Desana a partir do material coletado. Já vamos ter subsidio para trabalhar com professores e alunos.
A origem dos povos da regiao é única, todos sabemos que somos povos que temos aproximação, não posso casar com Desana, apenas com Tukano, essa é a tradicao.

Adriano Tariano: “os Desana são irmãos maiores dos Tariano, nós somos segunda pessoa, somos trovões. Nós não podemos casar com Desana nem com Tuyuka. O José Maria falou certo, não posso casar com irmã dele, nem prima nem filha, essa é a norma dos indígenas. Podemos casar com Tukano, Wanano, Piratapuya, o mesmo com os Desana. Agora já tem Tariano casando com Tariano, isso não poderia acontecer segundo a norma dos indígenas. A lei reza que se mulher branca chega para casar com indígena, vai viver na área; se homem branco vem, leva embora, vai para Manaus. Essa é a colocação correta que José Maria Lana colocou. Os Desana estão acima dos Tariano, eles são os donos do mundo, nós somos o segundo, só fazemos relampear.”

José Maria Lana: “os Desana se dividem em dois grupos grandes, os irmãos maiores e os avôs. O grupo de avôs se concentra em Cucura Manaus, quem era articulador para esses grupos de clã Desana eram Nazareno e Durvalino, dois irmãos. Esses grupos do Rio Mari, Cucura Manaus, Rio Castanha, Pinarara, Cururi e Floresta iriam se encontram em Cucura Manaus, por isso fizemos grande investimento em formar duas palhocinhas feitas com projeto do Vigisus. Ao invés de construir maloca investimos na reforma.
“Segundo meu pai, o grupo Boreka era dividido em seis grupos. Nós éramos os últimos, mas nesse aqui, que os próprios Boreka escreveram, são nove grupos de irmãos maiores, e outros 12 grupos yehkʉsʉmã. No livro Antes o Mundo Não Existia, alguns grupos Desana não estão descritos, eles era considerados exterimnados, que não geraram filhos. O irmão maior superior de todos os ʉmʉkoɾi Mahsã era Boreka.”

José Maria listou todos os grupos, de irmãos maiores e de segunda categoria. No total foram contados 20 grupos distintos.

Adeilson Lopes (ISA): vocês chegaram a influenciar as escolas a ensinar na língua Desana?

José Maria Lana: “no magistério indígena separaram por grupos, imaginaram como se fosse no Mato Grosso, os Xavante moram só eles em uma aldeia, mas aqui tem comunidades mistas, muitas etnias vivem na mesma comunidade. Então quando se cria uma escola não dá para discutir um Projeto Político Pedagógico com três professores de povos diferentes numa mesma escola, porque o município não tem condição de pagar. Então a produção de material didático foi dividida por etnias.
“Os alunos do magistério indígena dos Desana estavam tanto no grupo de chefes como no de irmãos menores, e começaram a se desentender na pronúncia, porque os grupos Boreka pronunciam diferente do grupo de avôs. Houve desentendimento e desistiram de trabalhar em grupos, então não conseguiram pensar em criar escolas Desana, porque as comunidades Desana são mistas, tem Tukano, Hupda.
“Somente a minoria fala a língua Desana, as pessoas de terceira idade, e eles não vão dominar numa sala de aula, não estão preparados para trabalhar como professor, as pessoas que falam Desana provavelmente só tem no máximo 4a série, meu pai era analfabeto. Então não deu para criar escola. Foi aí que pensamos em fazer esse projeto para revitalizar, produzir material didático, e com esse subsídio criar a escola Desana.
“Atualmente os Desana do lado do Tiquié, Uaupés, Iauaretê falam mais Tukano, no Papuri eles falam mais Piratapuya.”
“Estamos coletando a parte de introdução. Por exemplo, uma história conta o que aconteceu com esse semideus, ele foi um criador, fez vários tipos de coisa acontecer, no seu tempo de auge, isso teve suas consequências, essas consequências se transformaram em benzimentos. Mas no fundo quem vai operacionalizar esses conhecimentos é o kumu. Não é o aluno da sala de aula. Eu sou mestre de canto, para chefiar maloca, mas outro grupo é quem vai benzer mesmo, que pode ser pajé, kumu, pode cuidar de benzer no parto, a criança. Isso é responsabilidade deles, meu papel é diferente, por isso separamos esses grupos nos espaço-temporais. Os detalhes mais específicos não serão divulgados porque é produção de material didático para crianças, só depois do ensino médio e superior, que ela vai poder exercer função de benzedor.
“Não sei quanto tempo isso vai demorar, enquanto estamos fazendo isso as pessoas de terceira idade vão indo, eles que estão falando fluentemente a lingua Desana. Na Colômbia também tem gente que fala, mas no Rio Papuri a classe jovem não fala mais, falam mais Piratapuya agora. Por isso estamos gravando, transcrevendo e com o CD as pessoas vão poder ouvir e treinar a pronúncia.”

Foto: Laure Emperaire/Pacta-IRD

Encontro de Culturas - dia 2
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Apresentacao Bayawi.ppt6.57 MB