Encontro de Culturas - dia 1

Encontro de Culturas - dia 1

Pessoal, abaixo segue mais um dia de conversas do Encontro de Culturas em São Gabriel, resultado da transcrição e edição das gravações de áudio. As falas estão um tanto editadas, então fiquem a vontade para reparar o que entenderem.

Terminada a oficina no Telecentro do ISA, depois de uma bela recepção na maloca do maadzero Luis de Itacoatiara Mirim, o Encontro de Culturas começou na maloca da Foirn, na 4a feira (25/3/09). Depois da imersão na internet, nos primeiros dois dias, a proposta do Encontro era apresentar os projetos desenvolvidos pelos próprios indígenas, e de que forma o uso de novas tecnologias e as questões de direitos se colocavam dentro de cada experiencia.

Abrimos o dia com uma apresentação geral, e a presença de cerca de 45 pessoas.

Fernando começou explicando o motivo do projeto: “a proposta do projeto apareceu do trabalho no ISA como advogado, vimos que muitos brancos tem interesse em conhecer a cultura indigena, principalmente as expressões artisticas, culturais como grafismos, musicas, danças para diferentes objetivos, desde pesquisadores até empresas como a Natura, pessoas que tem interesse comercial em trabalhar com os indios. Varios grupos diferentes dos brancos tem tido interesse em conhecer mais a cultura indigena, e divulga-la para o mundo.
De outro lado vimos que os próprios indigenas já tem seus projetos de revitalizacao cultural, e esses projetos estao cada vez mais usando tecnologias. Toda associacao tem seu computador, laptop, filmadora, gravador de áudio, maquina fotografica.
A proposta da nossa conversa é discutir de que forma a tecnologia pode ajudar os povos indigenas no seu trabalho de valorizacao cultura, e de que forma elas podem atrapalhar. A tecnologia foi inventada para facilitar nossa vida, mas tambem pode complicar, e a sociedade depende cada vez mais da tecnologia.
Vimos tambem que as tecnologias vem avancando muito rapido, mais rapido do que a gente consegue entender. Não entendemos tudo que a internet pode fazer, de que jeito a tecnologia transforma as formas das pessoas se conhecerem, se relacionarem. Isso é novo para todos, não apenas os indigenas.
Nossa proposta aqui é aprender o trabalho que cada está fazendo em seus projetos e de que forma estão usando a tecnologia para ajudar no esforço de valorização cultural.
Começamos a perceber que ferramentas como a internet pode ser caminhos importantes para o fortalecimento da cultura indigena. Todos os projetos dos grupos com quem trabalhamos incluem ferramentas tecnologicas. Muitos projetos estao acontecendo no ambiente das escolas, com os jovens. Ouvimos as pessoas dizerem que a preocupação que deu origem a esses projetos é o desinteresse dos jovens pela cultura dos antigos. Agora é o momento de juntar as pessoas e seus diferentes projetos e ao longo do encontro vamos abrir espaço para cada um apresentar o trabalho que faz e as questões que estão colocadas, lições aprendidas, experiencias.”

VAI PODER GRAVAR O ENCONTRO? DISCUSSÃO SOBRE IMAGEM E DIREITO AUTORAL

Em seguida, considerando que muitos queriam fotografar, gravar o audio e filmar o encontro, discutimos a respeito da autorização para registrar o próprio encontro. Fernando explicou que o material de audio será usado apenas no projeto para relatar as conversas feitas posteriormente no blog do projeto na internet. Partimos então para estabelecer uma regra de comum acordo.

Higino Tuyuka ponderou que as lideranças jovens hoje querem tecnologia, para eles é um prazer acessar tudo, mas por outro lado até que ponto essa tecnologia deve respeitar o outro, para evitar confusões? “Quero ter cuidado e saber se as filmagens serão guardadas em arquivo, ou se vai ser pendurada na internet. Por isso queremos ter um termo de compromisso.”

Para ilustrar o problema, Adriano Tariano contou o caso que vivenciou em Uapuí Cachoeira: “Fomos em Uapuí, fizemos filmagens e nossos parentes não deixaram. Falaram que fomos filmar sem pedir licença, colega meu chegou filmando tudo, a liderança reclamou. Prometi muita coisa sem querer. Mas não foi bem filmado, temos que filmar de novo, porque nossos ancestrais saíram dali. Os Baniwa são nossos cunhados, seus ancestrais também surgiram lá. Temos que acalmar a liderança para que não venha nos atacar novamente. Disseram que vamos filmar e vender por aí. O responsável, liderança e pajé, quando encontrei ele aqui novamente, me disse que deixei malefício na cachoeira, todo dia está caindo raio ali, acabou o peixe. Eu não fiz isso não, não sou pajé, apenas cantor e baterista.”

Yapariwa Yudja: “é bom que gravemos esse nosso movimento pois isso vai servir de memória, mas não vai ser possível contar uma estória sagrada; vamos contar nossa lutas, a forma como estamos convivendo com o mundo atual, que não é facil. Queria que nosso evento fosse gravado. Queremos mostrar vocês na nossa comunidade, mas não vamos colocar na internet, vamos guardar para nós, para ver e lembrar que estivemos aqui em 2009 fazendo troca de experiencia.”

Leticia (ISA) contou um caso que aconteceu com eles em manaus. Estavam sentados na praça e uma pessoa pediu para tirar foto da pintura em sua perna. Os Yudja perguntaram a finalidade do uso, o fotografo disse que era para uso pessoal. No entanto, ao fim os Yudjá não permitiram que ele tirasse a foto, porque não tinham como acompanhar o que iria acontecer com aquela imagem depois.

Luiz Moncau (FGV) disse que no caso não se tratava de direito de imagem, mas do direito autoral sobre o desenho, coisas que o ser humano cria com sua imaginação, que representa através de imagens. O desenho na perna seria protegido pelo direito autoral, ela não poderia dizer “essa perna é minha, não quero que apareça”, porque não é o direito de imagem, é o direito sobre a criação dos Yudjá.

Fernando comentou que o direito de imagem também pode ser protegido mesmo quando a pessoa é fotografada em local público, caso o uso da imagem seja desrespeitoso ou ofenda a pessoa. Outra questão colocada foi o conceito de local público: a aldeia, por exemplo, é um espaço publico ou privado? A lei não dá resposta, pode ser um espaco privado, dentro de terra indígena, outros podem dizer é um espaço publico comunitário.

Joselito Kotiria explicou que os alunos bolsistas do PDPI estão fazendo treinamento com a câmera perante o público para perder a timidez, querem registrar para levar à comunidade, mas deixarão cópia com todos os participantes.

Higino questionou: “qual é o lugar público? A maloca? O homem branco diz que lugar publico é praça, rua, praia, bar, lugares publicos, onde todo mundo frequenta. Para os índios, não se sabe onde está o lugar público, na roça, no banho, na praia. Não estabelecemos o que é o lugar publico.

Luiz Moncau contou um caso em que uma amiga estava andando em uma praça em São Paulo, tiraram uma foto dela, em local publico, mas usaram a foto para fazer propaganda de um apartamento que estava à venda na praça. Usaram a imagem dela para fazer propaganda de um produto, a moça notificou a empresa para retirar a imagem dela, e a imagem foi retirada. É um caso em que a pessoa estava em espaço publico, ou seja, não precisaria de autorização, mas como ela foi usada para um fim lucrativo, comercial, foi necessário o consentimento.

Outro exemplo do Luiz mostrou um caso oposto. Um rapaz frances filmou diversos episodios de sua vida desde pequeno, e quando tinha 25 anos reuniu tudo e decidiu fazer um filme sobre sua vida. Gastou 500 dolares, apresentou no festival de cannes, o filme foi elogiado, mas tinha um problema. Por exemplo, ele filmava a mãe preparando comida na cozinha, com o radio ligado, e ao fundo tocava uma musica de um artista. Ele não tinha autorização para usar aquela musica. Em vários pontos do filme havia situações como essa, em outro momento ele estava vendo desenho animado na TV, e não havia autorização do dono para mostrar o desenho animado. Quando o frances tentou distribuir seu filme, os detentores dos direitos autorais cobraram uma quantia absurda. Ele estava filmando sua própria vida, dentro da sua casa, e foi impedido de mostrar porque havia cenas ocasionais onde apareciam trechos de músicas ou programas de televisão. Mesmo que aquilo aparecesse no filme apenas de maneira incidental, por acaso, ele não conseguiu levar o filme à exibição porque não tinha dinheiro para pagar os direitos autorais.

No fim da conversa, ficou estabelecido que a regra geral seria a permissão para gravar o áudio, fotos e filmagem, e no transcorrer do Encontro, se alguém não quisesse que algo fosse gravado, poderia pedir e seria respeitada.

IMPACTOS DA TECNOLOGIA

Fernando: “o uso das tecnologias tem tornado cada vez mais dificil controlar o exercicio do direito autoral, de autorizar ou não, porque ficou muito fácil copiar material com alta qualidade e rapidamente, através dos meios digitais. Hoje alguns artistas se aliaram aos pirateiros, porque sabem que é impossível controlar a circulação da música deles, e sabem ao mesmo tempo que eles fazem um serviço de divulgação para eles. Quando vimos que algumas coisas não podem ser mostradas ou autorizadas, precisamos pensar em como usar essas novas tecnologias. É esse tipo de cuidado que queremos ter no trabalho que estão fazendo.”

José Maria Lana: “o projeto Bayawi tem previsão de gravação de benzimentos exclusivos do kumu, gravação para transcrição. Estamos produzindo CD com essas gravações, para quem transmitiu esses conhecimentos poder guardar em seus arquivos. Mas se outros vão ter acesso, daqui a pouco o kumu não tem mais cliente para benzer! Essa é nossa preocupação. Estamos gravando benzimentos para cuidar de doenças ou estragar as pessoas. Esse é conhecimento exclusivo de uma pessoa, só aquele clã Desana sabe aquilo. Tem conhecimentos tradicionais de uso exclusivo daquele povo, daquele clã. Com essas tecnologias, vamos reproduzir em CD, daqui a pouco alguém tem acesso, sai benzendo através do CD. Por exemplo, uma vez uma pessoa estava aqui em Gabriel benzendo a filha dele em Manaus pelo telefone!”

Higino Tuyuka, então, colocou uma das principais questões para reflexão no Encontro: “a tecnologia tem um lado negativo, que não fortalece o costume de transmissão das práticas tradicionais, na nossa vida. O que fazia aprender é a vida dinâmica da prática. Através da tecnologia voce pode gravar milhões de CDs, está guardado, pelo menos serve para memória, lembrança morta. Quando voce abre, consegue decifrar como era antigamente; só isso, voce não retorna a viver. Essa é a mentalidade que temos. A cultura vai ser preservada, mas morta.
Falamos que queremos preservar nossa cultura através da tecnologia. Isso todo mundo quer. Gravar filme para história ser revitalizada. É bom isso, é para preservar, mas é uma lembrança morta, está lá no CD, não tem dinâmica, está guardada no arquivo, só traz tristeza.
Vamos transformar essa tecnologia? Vamos viver? Vamos ressuscitar? Ninguém confia em fazer isso, porque a tecnologia tem outro tom! A cultura vai ser guardada morta lá. Nasci dentro da cultura viva, no contexto social. Hoje será que realmente a tecnologia vai revitalizar? Tudo o que conhecemos de nossos sábios – dar passo, cantar, entoar – vem na dinâmica das práticas culturais. Se um antropólogo descreveu, voce vai ler mas não vai reviver isso, não vai ter o som da flauta, ninguém dançando, a gente só conhece a vida do passado, nunca vamos viver, conviver. Devemos discutir isso, que nos ofereçam uma tecnologia que nos dê vida.
Vamos preservar, tudo bem; muitas vezes acreditamos na tecnologia mas não acreditamos na vida dinâmica da sociedade. Branco não inventou a tecnologia à toa, inventou para viver. Vamos ser eternamente olhados como pesquisados, também vou ser pesquisador indígena pesquisando a própria família, eu conheço mas não vou viver esse conhecimento. Hoje mudou tudo, não conseguimos direcionar a política de revitalização e fortalecimento. Uma parte a gente fortalece, mantemos nossa língua, mas e o costume, as danças?
Será que conseguimos fazer aqui na cidade? Conseguimos fazer canoa como fazíamos? Aquele indígena que nasceu na aldeia sabe porque saiu de lá sabendo, e quem nasce aqui? Vai olhar na figura e dizer 'essa canoa meu pai quem fez'. E tu sabe fazer? Não, é meu pai que sabia.“

Após a rodada inicial de conversas, passamos às apresentações de cada projeto.

APRESENTAÇÃO BANIWA - Projeto Podaali

Moisés Baniwa fez uma longa apresentação representando a comunidade Baniwa de Itacoatiara Mirim, e começou pela história de criação da própria comunidade: “vimos para São Gabriel e conseguimos esse espaço no km 10 (itacoatiara mirim). Sentimos falta da nossa comunidade no Rio Ayari, os festejos, as tradições. Desde 1985 estamos em busca de uma terra para fundar uma comunidade. Começamos a morar no sitio de um parente perto de Camanaus, depois de 2 anos procuramos outro lugar, mudamos para perto da pista do aeroporto. Para o índio, o mato é como a cidade, o hotel. Abrimos o espaço e ficamos, depois de 3 meses a Funai disse que era perigoso, que precisávamos sair. Consideramos voltar para nossa comunidade, mas outros ponderaram que nossas roças já tinham se acabado l, e aqui já tínhamos outras roças, então entramos em acordo com a Funai para ir para o km 45 da estrada para Cucuí. Quando fomos lá ver, decidimos que não dava para morar, era muito longe, tinha dificuldade de acesso a roça. Então negociamos o terreno onde fica hoje a comunidade com um funcionário da prefeitura, e estamos lá há 18 anos. Nossa comunidade de origem ficou para trás, fomos crescendo, nossos velhos envelhecendo, chegamos em um momento que pensamos que Itacoatiara Mirim tinha recursos escassos.
Vimos lutando há 18 anos querendo construir uma maloca, mas como na cidade as coisas são caras, tivemos dificuldades. Em 2005 voltamos para o Rio Ayari e visitamos nossa comunidade, quase 20 anos depois; já está tudo mato, não tem mais nada, até onde ficava a maloca é capoeira. Voltando aqui conversamos com a Foirn, com a idéia de um projeto para construir uma maloca. Formulamos um projeto para a Petrobras Cultural, na primeira vez fomos desclassificados, depois reformulamos o projeto com a Deise e reencaminhamos em janeiro de 2007. Em outubro foi aprovado o Projeto Podaali, em nome de todos os Baniwa do Rio Negro.
Em agosto fizemos a primeira oficina para conversar como serão usadas as imagens do registro. Naquele tempo de formulação do projeto ainda não estava acompanhando. Apesar de morar na cidade, ficamos na comunidade e trabalhamos para sustentar família. O trabalho que desenvolvia na cidade não estava dando, então voltei para a comunidade pra acompanhar o projeto.
Objetivo do projeto era construir uma maloca, mas como conseguimos parceria com isa, foi adiantada uma parte do recurso, compramos material, caranã, esteio, compramos rancho pra fazer ajuri com pessoal da comunidade, enquanto esperávamos pelo projeto. Outra parte do recurso ganhamos do prêmio Cultura Viva, e isso contribuiu pra concluir a obra. Coletamos a palha na área da aeronáutica, dependíamos de autorização deles. Conseguimos concluir e fizemos inauguração.
Outro objetivo do projeto é o resgate das flautas sagradas que deixamos na comunidade Camarão, 20 anos atrás. Deixamos lá porque era uma vinda provisoria, para comprar material pra levar pra comunidade, mas a dificuldade era grande, vinha no remo, negociava compra de alimento na subida, o que voce pega aqui se gasta na viagem. Deixamos nosso patrimônio lá e pensamos em resgata-lo.
Hoje pessoas que vieram de lá sabem fazer tipiti, canoa, peneira, tudo que a gente usa para morar na comunidade, mas o jovem que nasceu aqui na cidade não conhece nada, e a pessoa acaba se enforcando, e os pais não podem chamar a atenção do filho que ele ameaça puxar uma corda, querendo se enforcar porque não quer obedecer o pai. Hoje em dia o jovem aprende briga, luta, e o pai tem que calar diante disso. É a experiência da nossa comunidade.
Vimos aconselhando essas pessoas ,e para isso construímos nosso espaço. A bebida é controlada, não permitimos bebida forte, para as pessoas respeitarem como a gente sempre fez. As meninas hoje não falam mais quando estão menstruadas, não tem mais conselho, respeito de antigamente. Por isso precisamos fazer demonstração de que éramos assim e continuamos respeitando o que nós temos. Senão estamos desvalorizando a nós mesmos.
Dentro da maloca algumas pessoas já perguntam como vamos fazer. Vamos fazer benzimento? Em Itacoatiara não dá pra fazer, espaço é pequeno, tem que ser feito em lugar distante, trazer para cá seria desrespeitar as outras comunidades que também praticam esse mesmo ritual. Temos que discutir isso com o pessoal do Içana. Podemos levar os jovens e os que praticam o ritual para inicia-los lá.
No tempo da escravidão meu tio pajé foi levado pelos colombianos, depois foi pra Venezuela, hoje ele mora em Ayacucho, longe dos parentes. Quando ele ouviu falar da maloca, ele veio nos visitar depois de 40 anos longe, fez um atendimento lá na maloca, até hoje nunca teve isso."

A MALOCA É IMPORTANTE

Enfatizando a importância do local da maloca, Adriano Tariano complementou: “nossa maloca está meio abandonada, fica distante, quem está morando lá são os hupda que fazem muitos filhos, a maloca está virando motel. Pra levar bem a maloca temos que construir próximos da casa da gente. Construímos ali porque foi o último lugar da maloca do Capitão Leopoldino, mas queremos agora construir outra maloca, mais próxima da comunidade, para acompanhar melhor. Assim é a norma dos indígenas, sou do clã dele, tenho que levar a vida do meu avô, seguir cantando, dando ritmo, lá estão os ossos dos meus avós, não posso abandonar o lugar sagrado.

Luis Laureano Baniwa, maadzero da maloca de Itacoatiara Mirim, deu seu testemunho sobre a trajetória de sua vida e da comunidade: “nasci lá em cima de Uapuí Cachoeira, em Surubi Cachoeira, na boca do waranã. Lá que eu nasci, me criei. Lá tinha roça, fruta, está tudo completo, arumã, tudo para a fábrica indígena. De lá fomos para a comunidade Camarão, onde tinha mais peixe. Lá me casei com a minha esposa, içaneira. Mas era longe pra fazer roça, não tinha beiju, anta estragava roça. Índio já usava roupa, fósforo, não sabia mais fazer fogo, índio já usava cultura do branco; então resolvemos procurar lugar melhor. Quando a gente usa dinheiro do branco, vai no bar, toma cerveja, quando acaba dinheiro não usa mais nada. Nós criamos a maloca para reproduzir a experiência do nosso avô finado.”

Moises Baniwa: “hoje ocupamos o espaço dentro da maloca, moramos lá dentro, minha familia, e também hospedamos nossos parentes. Queremos criar um espaço para hóspedes, um espaço de lazer próximo da maloca para continuar dando movimento. Temos muitos parentes morando na cidade, nem nos encontramos mais. Queremos ter um espaço para combinar de nos encontrar no fim de semana, conversar com visitantes.”

O DOCUMENTARIO SOBRE A TRAJETORIA DE ITACOATIARA E O CONTRATO COM A PETROBRAS

Com a palavra, novamente, Moisés Baniwa: “dentro do projeto pretendemos realizar um documentário de 25 minutos com a história da comunidade. Queremos documentar a chegada em itacoatiara, a construção da maloca, e subir o Rio Içana contando a história da nossa comunidade, depois voltamos para editar o filme e distribuir para todo mundo, não apenas os Baniwa, para verem as nossas atividades dentro do projeto.”

Alguns dias antes do início da semana do Encontro, haviamos recebido a proposta de contrato entre os Baniwa e a Petrobrás, onde constavam cláusulas de cessão de direitos autorais sobre o conteúdo do projeto para a empresa utilizar em comunicação institucional. Levantei (Fernando) essa questão: “voces pretendem documentar a história da comunidade e a viagem até Camarão. Fizemos em agosto uma oficina e conversamos sobre a forma de divulgação dessa filmagem. Agora, no contrato da Petrobrás consta uma cláusula que diz que eles têm direito de usar o material para propaganda deles. Sabendo que vão usar o documentário para propaganda, o que voces quererm mostrar?”

Eduardo Viveiros evidenciou duas situações diferentes: “uma coisa é a Petrobras pedir cópias do vídeo para distribuir a escolas onde ela atua, outra coisa é alterar o video, incluir trechos em um comercial na televisão. A Petrobras financiou, tem direito de ter cópias e distribuir como propaganda institucional. Outra coisa é ela tirar trechos para propaganda.”

Depois de consulta à Petrobras pelo telefone, ficou esclarecido que a propriedade intelectual sobre o vídeo permanece com os indígenas, ou seja, a Petrobras não é dona do video, e que o termo “comunicação institucional” abrange tanto o uso do video em campanhas institucionais gerais ligadas à imagem da empresa, como pode tambem incluir eventualmente o uso para propaganda de produtos como gasolina. No entanto, esta ultima hipótese é muito remota e até agora não aconteceu em nenhum caso.

-----------------------------------------------------------------

APRESENTAÇÃO YUDJA – Projeto Registro da Cultura Musical do Povo Yudja

Depois da apresentação dos Baniwa de Itacoatiara, prosseguimos com a apresentação feita pelos Yudjá, Yapariwá e Maiawako, que vieram do Parque do Xingu para o Encontro.

Yapariwa Yudjá foi quem fez a apresentação: “estamos fazendo nosso trabalho junto com o ISA, fomos elaborando algumas idéias em forma de projeto, para ver se alcançávamos nosso objetivo. Naquele momento, quando começamos a fazer o trabalho, não tínhamos a responsabilidade que temos hoje, não éramos adultos ainda. Éramos muito moleques, porque na nossa cultura, só depois de 30 pra cima voce se torna uma pessoa responsável.
Depois de fundada a associação Yarikayu em 2002, mesmo sendo uma associacao de uma só comunidade, vimos trabalhando em parceria com outras organizações, através de intercâmbios.
Registrar nossa cultura era preocupação de jovem, não dos velhos. Antes chamávamos de 'resgate cultural', mas depois vimos que a cultura ainda estava com a gente, então para manter ela viva mudamos o nome para 'revitalização cultural'. Começamos a registrar algumas coisas de brincadeira, fomos tendo essas primeiras idéias. Quando o povo começou a se interessar, começamos a aumentar o trabalho.
Fizemos um primeiro encontro, identificamos uma parte que já pesquisamos sobre perda de cultura. No passado todo mundo sabia cantar, dançar, fazer canoa, fazíamos uma coisa que trazia o valor daquela comunidade de volta. Então alguns questionavam: 'se a cultura ainda está com a gente, para quê registrar? Quem vai ouvir? Eu, que sei cantar, vou ter que ouvir minha própria música?' Era um questionamento forte, mas depois essas pessoas começaram a nos apoiar. Associação e escola começaram a fazer na prática, na lingua, e começamos a ganhar respeito pelas preocupações colocadas.
A associação fez a festa, gravamos as músicas, em apenas uma festa gravamos 283 músicas. Fomos melhorando, e hoje continuamos fazendo com mais planejamento.
Não permitimos a publicação, é apenas um registro para nós, alguns querem mostrar porque gostam da música, quem é o dono da cultura pode decidir, no caso a comunidade, eu sou apenas empregado lutador pela cultura. Antes o pessoal não queria que gravasse, depois que ouviram todos quiseram mais.
Apesar de ser projeto para gravação de música, fizemos muitas outras coisas, registramos as histórias relacionadas às musicas. Os alunos não sabiam cantar direito, mas com a transcrição das músicas e com as histórias, as pessoas aprenderam rapidamente. Tentamos traduzir as letras da música, mas foi difícil porque os termos não têm equivalente no português. Ao mesmo tempo pensamos, se estamos fazendo isso para guardar pra nós, então para quê traduzir ao português? Decidimos não vender também, mas as coisas começaram a fugir, começaram a fazer cópias dos Cds. Se a gente decide podemos botar preço, acabamento, botar a história e tentar vender, mas não ia ter saída, voce acha que vai dar lucro, mas depois de um tempo ninguém vai querer mais porque um compra, o outro copia e assim por diante. É bom que venda, mas voce está dando de graça o conhecimento para outras pessoas. É diferente quando há uma troca, eu dou o meu e você me dá o seu CD. Nosso conhecimento já está nas mãos de outras pessoas, sendo modificado, por isso não quero vender. Apenas distribuímos para algumas pessoas mais próximas.”

Yapariwá apresentou o resultado da discussão sobre a forma de divulgação do material que será publicado, e também a discussão sobre o papel do ISA como depositário do material de acervo não publicado dos Yudjá. Além das regras de divulgação gerais, Yapa apresentou também as regras específicas para determinadas músicas, como horários determinados para cantar ou ouvir algumas músicas de ninar. Discutimos se era melhor gravar e manter no CD, ou deixar de fora do CD por causa dessas regras. Os Yudjá decidiram deixar com a advertência. Outras músicas, como as músicas do pajé, sequer foram gravadas.

FALTA DE FLAUTAS

Yapariwá colocou uma questão importante que limitava a possibilidade de transmitir a cultura musical dos Yudjá à nova geração: a falta de flautas. O projeto dos Yudjá previu uma expedição a locais de ocorrência das taquaras matéria prima, bem como uma oficina de fabricação de flautas.

Segundo Yapá, “antes do projeto os jovens não sabiam tocar, só havia duas pessoas com flauta na comunidade, era impossível emprestar, eram únicas, depois que levamos o material para fazer novas flautas na aldeia, foi possível espalhar muitas flautas pela comunidade.
Agora facilitou porque temos gravação no CD, tiramos cópia, ouvimos no fone de ouvido e tentamos acompanhar. Assim que está sendo repassado esse conhecimento. O pessoal até compete pra ver quem toca melhor. Isso tudo graças a associação e escola. Antes de ter a associação éramos desorganizados, não tínhamos representantes nossos lá fora.

Eduardo Viveiros colocou a pergunta: “houve um tempo em que os velhos tinham as flautas, e hoje de repente se deram conta de que estavam perdendo e agora estão nesse processo de revitalização. O que aconteceu no meio que levou a esse esquecimento, a perda das flautas?”

Yapariwa Yudja: “a flauta foi desvalorizada por nós mesmos, eu mesmo quando comecei a conhecer o mundo fora nem sabia das flautas. Desvalorizamos porque não conhecíamos, era difícil aprender, treinar. Depois que vimos que uma parte da cultura estava fraca, começamos a pedir para as pessoas contarem, associação e escola organizaram-se para isso. O local do recurso natural é distante, custa tempo e recurso, o pessoal achava que as coisas iam se perder, quando percebemos isso fomos atrás. Hoje nós é que somos cobrados pela comunidade para fazer mais coisas.
Minha avaliacao é que deu resultado, trocar experiência com outros povos é entregar outros conhecimento para depois transformar a vida dos outros, é assim que a gente constrói nossa vida, se ficamos parados não temos outra experiência para aplicar na sua vida e fortalecer sua comunidade.”

Foto: Maiawako Yudjá