Como ficou a agenda no Rio Negro

No último dia 29 de fevereiro fizemos mais uma reunião de coordenação do projeto em São Paulo, com a presença de parte da equipe do Rio Negro (Beto, Geraldo, Laíse), dois indígenas coordenadores de projetos de valorização cultural na região (Moisés Baniwa e Ediberto Wanano), e os colaboradores do projeto (Eduardo Viveiros e Ronaldo Lemos). A seguir um relato do que foi discutido e a agenda acertada.

Casos apresentados:
- trabalho de degravação de documentário sobre a missão salesiana em SGC. Há material - bruto em poder do Iphan-MAO, que está digitalizando o acervo. Parte deste já se encontra em mãos dos Tariano, e parece ter bastante potencial para deflagrar discussões sobre prerrogativas tradicionais entre os povos do Rio Negro

- Cachoeira de Iauarete – parte do plano de salvaguarda da cachoeira é o registro audiovisual da cachoeira de Uapui pelos Tariano – houve resistência por parte de liderança Baniwa de Uapuí Cachoeira, de clã de alta hierarquia, contrária à filmagem da cachoeira pelos Tariano por se tratar de local de origem do povo Baniwa. Após negociação entre os Tariano e os Baniwa, a cachoeira pôde ser filmada, com condições.

- projeto Podáali (Moises) (em anexo) – projeto será desenvolvido em Itacoatiara Mirim, comunidade perto da cidade, a partir da preocupação com o risco de perda de conhecimentos. A nova geração de crianças não acompanham mais as atividades tradicionais de roça, não foram iniciadas. Uma das ações do projeto é resgatar as flautas sagradas que estão na comunidade de Camarão, rio Ayari. Seu Alberto, Baniwa filho da liderança de Uapui Cachoeira (a mesma que não concordou com o registro audiovisual pelos Tariano), é contrário a transportar as flautas de Camarão para Itacoatiara, descendo o rio com elas pelas comunidades. As flautas não podem ser exibidas abertamente, não podem ser filmadas, devem viajar à noite. Os Baniwa de Uapui, que têm suas próprias flautas, têm receio de que os Baniwa de Itacoatiara (de um clã mais baixo) violem as regras de conduta para o uso das flautas sagradas. Embora as flautas que estão em Camarão sejam de propriedade dos Baniwa de Itacoatiara, se estes infringem as regras de uso sobre seus próprios objetos sagrados, isso afeta também os objetos sagrados deles. Como se violar as regras de uso das flautas sagradas afetasse todas as flautas igualmente, independentemente de quem é o dono.

- projeto Kootiria ya bahsa (Ediberto) (em anexo) – projeto PDPI com o objetivo de valorização das danças tradicionais Wanano. A justificativa para o projeto é semelhante à do projeto dos Baniwa: preocupação com a desvalorização das danças, vistas pelos missionários como “coisas do diabo”. O projeto é coordenado pela associação e pela escola Wanano; os atuais professores não foram educados tradicionalmente, então surge a pergunta: de que forma queremos transmitir esse conhecimento para as novas gerações? O conhecimento sobre parentesco também está se perdendo, e como as danças são processos de intercâmbio entre diferentes clãs, sua retomada também ajudaria a recuperar esse conhecimento.
Entre as ações do projeto, além do registro audiovisual das 6 cerimônias ainda conhecidas pelos Wanano – com a produção de DVDs e CDs de áudio -, está prevista a construção de maloca, instrumentos musicais e uma expedição para buscar o caapi, bebida ritual que antigamente acompanhava as cerimônias.
Há informação de que existem instrumentos Wanano depositados em um museu dos Salesianos em Cuiabá – MT, datados dos anos 50.
A antropóloga Janet Chernela também possui um acervo de audio datado dos anos 80, depositado na universidade de Indiana, que deve ser digitalizado na universidade do Texas. Há interesse dos Wanano em recuperar essas gravações. Essa iniciativa se cruza com o trabalho da linguista Kristine Stenzel, que atualmente desenvolve um projeto de registro da cultura Wanano.

Eduardo Viveiros ponderou, para a discussão, se a produção do DVD atende aos mesmos propósitos como objeto para fora e para dentro do grupo. Um produto pode ter várias funções. Por exemplo, o video dos Araweté foi produzido com o objetivo de auxiliar na luta pela demarcação de seus territórios; foi um video produzido “para fora”; os Xavante produziram video para vender e arrecadar dinheiro; para os Baniwa e os Wanano, nesses projetos, o video parece ser um meio para recuperar parte da tradição; nesse sentido, a circulação para fora e a remuneração são objetivos secundários, o objetivo primário é voltado para dentro do grupo.

As duas iniciativas – Baniwa e Wanano – podem ser sincronizadas com a agenda do Pontão de Cultura da FOIRN, que deve agregar várias outras iniciativas de valorização cultural puxadas por grupos do Rio Negro. A idéia proposta é aprofundar a discussão sobre salvaguardas nos dois projetos mencionados, e ao fim promover um encontro maior no Pontão de Cultura reunindo os grupos responsáveis por diferentes iniciativas de forma a estabelecer uma discussão sobre formas de mediação e salvaguardas culturais, ao fim do projeto.

Aferidas as agendas dos participantes, ficou acertado o seguinte planejamento:

10 a 30 de AGOSTO/2008 – Primeira jornada de oficinas
a) Oficina "Conhecimentos Tradicionais e Novas Tecnologias" em Itacoatiara Mirim com os Baniwa (5 dias)
b) Oficina "Conhecimentos Tradicionais e Novas Tecnologias" em Caruru Cachoeira com os Wanano (5 dias)

08 a 30 de MARÇO/2009 – Segunda jornada de oficinas e Seminário Pontão
a) Oficina de reflexão em Itacoatiara Mirim com os Baniwa (5 dias)
b) Oficina de reflexão em Caruru Cachoeira com os Wanano (5 dias)
c) Seminário sobre Cultura no Pontão de Cultura da FOIRN, em São Gabriel da Cachoeira

AnexoTamanho
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