OFICINA DO PROJETO CONHECIMENTOS TRADICIONAIS - POVO IKPENG

Entre os dias 23 a 26 de junho, foi realizada a primeira oficina do Projeto Conhecimentos Tradicionais Inovar para Avançar, na aldeia Moygu, habitada pelo povo Ikpeng, no Parque Indígena do Xingu.

Os participantes indígenas da oficina, em sua maioria, integravam o Movimento Jovem Ikpeng (MJI) e/ou faziam parte da Associação Indígena Moygu Comunidade Ikpeng (AIMCI). São eles: Amtenu, Arauepi Ikpeng (Michael Jordan), Pomekempó, Aptuká, Arakapi, Tanipi (Frank), Pabru, Aro, Kawyago (Rafa), Maté, Oporike, Paiatá, Txontó, Maiuá e Kumaré.

Os condutores da oficina, os advogados Fernando Mathias e Carolina Pinheiro, do programa de Política e Direito do Instituto Socioambiental (ISA), contaram com a colaboração de Rosana Gasparini, educadora do programa Xingu, também do ISA.

O objetivo dessa primeira oficina era iniciar a discussão em torno da relação entre cultura, tecnologia e direitos. Para tanto, partimos dos objetivos e produtos do Projeto Casa de Cultura Ikpeng MAWI EMRI, patrocinado pela Petrobrás e promovido pela AIMCI com a coordenação técnica de Mari Correa da ONG Vídeo nas Aldeias. Os objetivos da Casa de Cultura Ikpeng, podem ser resumidos na realização de pesquisa, documentação e divulgação do seu patrimônio cultural, valorizando o conhecimento tradicional pelo uso de novas tecnologias, a saber, criação de banco de dados digital, gravação de CD e DVD e criação de um site dos Ikpeng na Internet.

Abaixo seguem descrições temáticas das discussões travadas na oficina, encaminhamentos finais, avaliação e próximos passos.

TECNOLOGIA & DINHEIRO

Kumaré, liderança jovem do povo Ikpeng, chefe do Posto Indígena Pavuru e atual presidente da Associação Moygu Ikpeng fez uma avaliação de seu trabalho junto a seu povo. Vem trazendo várias coisas de fora, do mundo do branco, sem uma avaliação do que é positivo. Assim, o planejamento da aldeia vem ficando parecido com o do homem branco. A tecnologia vem entrando rapidamente no mundo dos Ikpeng, através principalmente do vídeo, e está quebrando tabus de tradições indígenas, como o tempo e a hora das danças, dos rituais e das músicas. Sabem que a tecnologia virá e que os Ikpeng terão que conviver com ela, mas não podem tomar decisões precipitadas, é preciso saber usa-las para benefício dos Ikpeng. Nesse sentido, o trabalho do ISA funciona como um “freio” a esse processo, e vem em momento muito oportuno.

De acordo com as considerações do grupo, a tecnologia vem chegando devagar e os Ikpeng não sabem dizer não. O acesso a tecnologias exige dinheiro e isso vem criando problemas pois, até para trabalhar, os indígenas agora exigem pagamento, mesmo que o trabalho seja para a comunidade.

A introdução de novas tecnologias, como o MP4, já vem causando impactos na aldeia. Houve um caso de roubo de dinheiro usado para comprar aparelhos de MP4, os jovens agora passam a ouvir música o tempo todo, inclusive de madrugada. E a hora de os velhos ensinarem é ao amanhecer e ao entardecer.

Segundo a opinião dos jovens presentes, você pode ouvir música do povo Ikpeng no CD ou no MP4, e até aprender a cantar, mas quem ensina não é o CD/MP4, mas os pajés, através do contato com os espíritos. Ou seja, o registro da música no CD ou no MP4 não garante que o conhecimento seja repassado, apenas registrado e ouvido. As músicas cantada pelos pajés não pode ser registrada porque vem diretamente dos espíritos, muda todo o tempo, dependendo da forma como os pajés conversam com os espíritos. Nesses casos, a tecnologia não ajuda.

Outras participações foram importantes para reafirmar uma primeira relação entre tecnologia e dinheiro. O dinheiro que compra aparelhos de telefone, de som e imagem, geralmente entra na comunidade pela remuneração individual por trabalhos variados já incorporados á economia local. Um exemplo é a remuneração dos realizadores indígenas, ou seja, os que trabalham na produção de documentários promovidos em conjunto com a ONG Vídeo nas Aldeias. Outro caso, são as várias oficinas, como a nossa que, para acontecerem, necessitam de, no mínimo, um pescador e um cozinheiro como suporte logístico.

POR QUE OS IKPENG QUEREM TER ACESSO AO ACERVO DE MUSEUS?

“Porque é nosso”, foi a resposta imediata. Segundo Kumaré, os Ikpeng são donos desse material. Os museus têm usado a imagem Ikpeng de forma distorcida, mostrando apenas a perspectiva que os antropólogos têm sobre a cultura indígena. A visão antropológica é diferente da visão Ikpeng. Ter acesso a esse material significa uma oportunidade de alcançar a história dos Ikpeng, deles saberem de onde vieram, de resgatar e dar vida à memória da história Ikpeng. A proposta é, depois de acessado esse material, estuda-lo para planejar a divulgação do ponto de vista dos próprios Ikpeng sobre sua história, tirando o poder da fala do antropólogo e aproveitando os professores e velhos Ikpeng para refazer sua história e mostra-la para os não indígenas.

Maiuá disse que o acesso é importante também para servir como um 'dicionário'. Existe muito material “original” dos pajés antigos, e isso é importante para ser usado nas escolas e auxiliar o estudo das crianças sobre a cultura Ikpeng. Há também o objetivo de utilizar o material acessado para auxiliar no processo de reconhecimento do território Ikpeng na região do Jatobá, atualmente em processo de demarcação na Funai.

O grupo reafirmou que existe uma decisão coletiva de divulgar a imagem Ikpeng. Sabem do risco que correm de haver algum mau uso de suas imagens (“pirataria”), mas mesmo assim irão divulgar o que acham que é melhor para eles, e sobre este processo de escolha eles têm controle.

Karané mencionou o caso de um Kisedjê que usou trechos de seu filme para realizar outro filme, sem autorização prévia e sem mencionar créditos. Karané reclamou da falta de crédito, e disse que seu filme poderia ter sido usado, mesmo sem autorização prévia, desde que a ele tivessem dado os respectivos créditos.

TECNOLOGIA & INTERNET: potência e perda de controle do material divulgado

Com a ajuda do material preparado pelo CTS/FGV, discutimos a evolução da tecnologia que desagua na Internet. Tecnologia foi apresentado como qualquer ferramenta, mecanismo, coisa ou sistema, que aplicado facilita a vida de seus usuários. A maioria dos participantes não tinha acesso freqüente a Internet, e alguns nem sabiam o que era. A representação circular da rede mundial de computadores seguida da imagem do planeta Terra iniciou explicações sobre os potenciais de difusão de informação e conhecimento que tem a internet. Apresentamos slides com exemplos de como a imagem dos Ikpeng transita na internet das mais variadas formas.

Das 16.900 em que o nome Ikpeng aparece em uma rápida busca no Google, duas criaram mais polêmica. A primeira refere-se à banda brasiliense, cujo nome é Ikpeng. Não foi possível mostrar aos participantes exemplos de música da banda, mas a capa dos álbuns, o site da banda, o nome dos participantes foi suficiente para gerar reações polêmicas entre eles.

A primeira reação foi a de encontrar um meio para fazer com que a banda parasse de usar o nome dos Ikpeng, porque tal fato agredia o grupo na forma com que se identificavam. Frisamos que os integrantes da banda explicam no site, que há várias versões da origem do nome Ikpeng. Uma delas é a de que significaria uma raivosa vespa que os índios costumavam passar na pele em um ritual de guerra. Várias pessoas afirmariam também que o nome lhes foi dado por antigos inimigos, tendo o grupo depois o recepcionado.

Frisamos que o nome dos Ikpeng só foi utilizado porque a comunidade se fez conhecida por alguma forma de divulgação da cultura deles. Ou seja, uma ampla divulgação para que a comunidade se faça conhecida abre portas para que pessoas que gostam dos Ikpeng, a utilizarem de várias formas.

Um dos jovens, Maté, disse que na cultura Ikpeng, para que uma pessoa use o nome da outra, é preciso pedir autorização ao dono do nome. A solução menos radical seria chamá-los para conversar, para que os Ikpeng pudessem conhecer os fundadores da banda. Ao que tudo indica a banda é de Brasília e há sempre a possibilidade de encontrar endereços eletrônicos. Contudo, nem sempre será possível saber que alguém faz o uso e, mesmo quando conhecido, entrar em contato com quem fez o uso das informações divulgadas pelos Ikpeng. A hipótese foi levantada, mas discutida ainda em termos muito abstratos, e deverá ser retomada posteriormente.

Nas palavras de Kumaré, a conversa seria para explicar e “ajustar” com os integrantes da banda que deram o nome Ikpeng a banda sem consultá-los e não se são ou não ricos. Querem saber se agiram de forma ofensiva, caso em que agiriam da mesma maneira. Querem saber qual é a finalidade de usar o nome dos Ikpeng, pois a ofensa que sentem advém da festividade Moyngu, ritual que representa a festividade, a alegria do povo Ikpeng.

BANCO DE DADOS: REFLEXÕES SOBRE AS REGRAS DE ACESSO E USO.

Por que criar um banco de dados? Recuperamos um dos objetivos do Projeto Casa de Cultura e apresentamos a experiência do banco de dados dos indígenas canadenses Inuits e do Traditional Knowledge Digital Library na Índia. Em ambos os bancos de dados, foram criadas condições de uso das informações, reunidas de diferentes formas. No primeiro caso, os Inuits formularam um código de ética para lidarem com os pesquisadores; no segundo, o acesso ao banco de dados está condicionado à aceitação de um rol de condições na própria página virtual.

As discussões novamente foram permeadas pela questão do pagamento pelo uso de diferentes informações. Mari Correa frisou a importância desse debate, na medida em que o próprio Vídeo nas Aldeias tem dúvidas da liberação dos filmes dirigidos pelos Ikpeng. O critério que tem sido utilizado refere-se ao poder econômico de quem pede: se a empresa não pode pagar os direitos autorais, o uso é liberado; mas se é uma empresa que pode pagar, o VNA tenta negociar.

A discussão, entretanto, foi focada nas possibilidades de uso de imagens e canções, por exemplo, a partir das possibilidades tecnológicas de fácil reprodução e derivação. A questão da remuneração não foi aprofundada, havendo momentos em que ela aparecia como condicionante máxima do uso ou como algo a ser pensado depois de estabelecidas as regras de uso.

Divididos em quatro grupos, os participantes responderam a duas perguntas, seguidas das respectivas respostas abaixo reunidas. Importante destacar que não há uniformidade nas respostas, haja vista que essa discussão será retomada na próxima oficina para avaliar a possibilidade de uma opinião coletiva do grupo participante.

QUAL O OBJETIVO DO BANCO DE DADOS IKPENG?

Valorização da cultura e da identidade Ikpeng por meio da reunião músicas, artesanatos, informações sobre a história, medicamentos tradicionais, imagens, filmes e dados sobre o território.

Divulgação da realidade Ikpeng, do seu modo de viver, como vivem, de onde vieram e para onde vão. É importante que todos conheçam itinerário dos Ikpeng.

Servir como subsídio aos estudantes para realização de pesquisa sobre a cultura Ikpeng;

Preservação do acesso Ikpeng ao seu patrimônio cultural;

Manter as sabedorias tradicionais do povo Ikpeng.

Usar este recurso imaterial para manifestações em defesa do povo Ikpeng e de seu território.

Facilitar acesso para povos indígenas e universidades para que em um intercambio cultural, possam mostrar quem são.

QUAIS AS REGRAS DE ACESSO AO BANCO? O QUE PODE OU NÃO PODE?

Para acessar o site (ou as informações disponíveis no site) é necessário se identificar;

Não será permitido baixar músicas, imagens e documentos que contenham as informações culturais, a não ser com autorização da comunidade

Não será permitido divulgar coisas sagradas, como o ritual Karó (Nesses casos apenas a comunidade Ikpeng teria acesso);

Deverá ser divulgada a história de onde vieram e de onde estão agora, algumas festas como o Moygu, e a luta Ikpeng para reconquistar o território tradicional;

As informações não podem ser falsificadas;

Pode copiar, pode acessar, mas não pode “piratear”.

TECNOLOGIA & DIREITO

Pirataria - O que é piratear? As respostas iniciais foram ao encontro do que é divulgado massivamente na mídia televisa, de que é errado copiar sem autorização filmes e CDs. Todos já tinham tido acesso a alguma mídia “pirateada”. Em uma tentativa de desconstruir a idéia de que todos são contra pirataria, damos o exemplo de bandas conhecidas por eles, como Calypso, que estimulam a cópia de seus discos, pois apenas assim eles se tornam conhecidos e podem fazer shows cheios de fãs.

A comparação do exemplo dado com os objetivos do projeto Casa de Cultura permitiu que o grupo refletisse acerca da relação entre pirataria e maior divulgação. Afirmaram, que havia o lado bom da pirataria, porque ajuda a divulgar uma cultura, mas que haveria o lado ruim, porque alguém poderia ganhar dinheiro “em cima dos Ikpeng”.

Atrás e na frente da câmera - Vários Ikpeng trabalharam na produção dos documentários produzidos em conjunto com o Vídeo nas Aldeias. Dessa forma, não foi difícil compreender o direito do antropólogo Jesco Puttkamer. Quem está atrás das câmeras tem o direito aos créditos pela produção visual ou audiovisual realizada. Quem está na frente das câmeras tem o direito de autorizar ou não (no caso) a filmagem e o uso das imagens produzidas. As referências consistiram, principalmente, no caso do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA ), para quem o antropólogo Jesco Puttkamer doou amplo acervo sobre os Ikpeng.

No caso dos povos indígenas, a nossa Constituição garante que eles possam viver segundo seus modos, costumes e tradições. Dessa forma, a manutenção da identidade cultural dos Ikpeng foi outro ponto discutido como forma de explorar os direitos dos Ikpeng de reivindicar o acesso ao material do IGPA para que pudessem usar para revitalizar a cultura Ikpeng.

Foram apresentados exemplos de outros povos indígenas que negociaram com museus. No caso dos Zuni, nos Estados Unidos, a negociação com Smithsonian Institution demorou 9 anos, e eles decidiram deixar grande parte de seus artefatos nos museus, porque entenderam ser este ponto estratégico para a divulgação e a promoção de políticas a eles favoráveis. No caso dos povos indígenas do Rio Uaupés, o museu do Índio, administrado pelo Patronato Santa Teresinha das Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora, lhes devolveu 108 peças de 16 tipos diferentes, todas usadas ritualmente com grande respeito.

Na língua Ikpeng, o grupo debateu sobre quais seriam as estratégias para que pudessem acessar o acervo de vários museus brasileiros. Ficou claro que eles não queriam tirar o material do museu, mas queriam ter acesso e permissão de uso ilimitado do material.
O debate incluiu também outras fontes de material Ikpeng, como o antropólogo Patrick Menget, que reuniu informações sagradas do povo Ikpeng, publicou livro nunca á comunidade apresentado.

Traduzidas pelos professor Mauiá, foram sistematizadas as falas dos participantes:
1.Pesquisar os materiais dos museus via internet e telefone;
2. Visitar, pesquisar e conhecer todos os museus formando comissão com participação das pessoas mais velhas, dialogando com a diretoria sobre os respectivos arquivos (imagens, filmes, coisas sagradas, etc);
3.Argumentar com a diretoria dos museus sobre as origens dos materiais e a perspectiva futra de uso dos arquivos tanto pelos museus quanto pelos Ikpeng;
4.Cobrar o direito dos Ikpeng de copiar os materiais audiovisuais digitalizados e de usá-los para pesquisa interna e novas criações;
5.Explicar a importância dos resgates dos documentos e propor parceria de juntos divulgarem a cultura Ikpeng, criar links entre as funções dos museus e da casa de Cultura;
6.Propor a troca de materiais e a correção dos dados catalogados pelo museu, caso queiram cobrar pelo uso Ikpeng dos materiais em acervo;
7.Propor à diretoria de trazer o material digitalizado para casa cultural MAWO EWRÏ, sendo cópias ou original, para evitar perda de todos os materiais pelos danos de incêndios , raio de trovão, etc...
8.Propor a cópia manual de artesanatos, para que ambas as casa possam ter peças Ikpeng.
9.Resgatar gravações das músicas sagradas com antropólogos e lingüistas, pesquisadores dos Ikpeng.

PRÓXIMOS PASSOS
1º: pesquisar os acervos na Internet (VNA);
2º: elaborar documento para IPHAN, perguntar se podem ajudar a comunidade a resgatar os acervos Ikpeng (AIMCI com ajuda do ISA);
3º: elaborar documento para os museus e antropólogos, marcando data e local da reunião, para conhecer o acervo e apresentar o projeto casa de cultura (AIMCI com ajuda do ISA).
4º: visitar todos museus numa viagem só, para começar a negociação (Fernando e Kumaré no mês de setembro).
5º: II Oficina do Projeto Conhecimentos Tradicionais: previsão para outubro.
6º: Oficina sobre acesso a internet e construção do site (Vídeo nas Aldeias): previsão para novembro.

AVALIAÇÃO DOS PARTICIPANTES

Amtenu Arauepi Ikpeng (Michael Jordan): Gostou, mas tem ainda muitas dúvidas. Aprendeu várias coisas do mundo da tecnologia.
Pomekempó: Agradece o pessoal da associação, que me convidou para participar da oficina. É novidade, não aprendi, não cheguei a entender como usar essas palavras que ouvi. Acredito que no próximo encontro possa entender. Fiquei um pouco confuso, porque tem os nossos direitos e os direitos dos outros. Indígenas e brasileiros, além de ser a lei que os brancos inventam, tem lei para os índios. Vocês vieram para preparar a gente pra ver como usar esse instrumento para divulgar nossa cultura. Achava que era fácil, mas é preciso saber comunicar através dela, usar bem essa tecnologia, dizer para o mundo que existem os nossos costumes. E sobre os museus, não podemos pegar tudo lá, para deixar reserva lá nos museus. Nos conhecemos e na próxima podemos conversar mais e aprender. No próximo podia envolver mais gente da associação, com mais experiência.
Aptuká: Gostei bastante dessa oficina em relação a atividade do homem branco, tecnologia, divulgação de cultura, não poso dizer que aprendi muito, mas pouco. Gostaria de pedir para não parar com essas oficinas. Só isso.
Arakapi: Eu não fui convidado, mas participei porque me interessei. Gostei bastante. Algumas coisas entendi e outras coisas não.
Tanipi (Frank): Gostei bastante dessa oficina. Não posso dizer que aprendi, mas algumas coisas sim. Espero que na próxima vez possa aprender alguma coisa. Assim vou me esforçar muito para aprender um pouco. Gostaria de aprofundar mais os mesmos itens que trabalhamos. Foi muito rápido. Na minha opinião, vocês tem muita pressa.
Pabru: Fui convidado pelo Txontó. Não deu para aprender muita coisa na oficina. Consegui não entender, mas conhecer algumas coisas. Consegui entender a Internet, como uma rede. O direito do fotógrafo, como discutimos. Foi bom também como usar a tecnologia, e não usar de qualquer jeito, usar a seu favor, para não prejudicar o seu lado. Para a próxima oficina, gostaria que retomasse o próximo tema, mas aprofundar um pouco mais. Buscar mais informações sobre os Ikpeng (banda, encontrar mais coisas do Ikpeng que eles não sabem).
Aro: Foi bom conhecer vocês. Na próxima oficina queria conhecer mais sobre museus, sobre outros índios. Dicionários sobre as palavras que eu não entendo. Histórias de outros índios de outros lugares, como eles vivem, se são como nós.
Kawyago (Rafa): Kumare que me convidou. De 100, aprendemos apenas 40%. Algumas palavras difíceis também passaram. Foi preciso entender a linguagem do projeto. Eu não conhecia sobre o projeto da casa de cultura. Aí vieram coisas na minha cabeça, o que vai ajudar, trazer para a cultura Ikpeng. Foi bom conhecer o que pode divulgar, a importância da divulgação, como podemos fazê-lo. Tem sempre o lado bom e o lado ruim. No caso da pirataria, que ela importante para a divulgação, mas prejudica algumas coisas. Foi difícil entender as leis do homem branco. Mexe com a cabeça da gente. Por que criam as leis e não cumprem. Já sabia sobre algumas leis diferenciadas (educação indígena). Mas porque tem vários índios no Brasil que vivem na beira de estradas, e por que a lei que lhes garante a terra, não é cumprida? Na próxima oficina, eu gostaria que fosse aprofundado mais sobre as leis não indígenas, direitos autorais. Conhecer mais sobre os museus de fora, o que eles conhecem e tem sobre os Ikpeng e e talvez ajudar os museus a corrigir. Mostrar que o passado já passou. Todos os livros que leio falam que os índios eram assim, e não que os índios são assim. A gente ainda vive, não somos passado. A nossa população vai aumentando e não acabando. Seria bom aprofundar sobre as leis que favorecem aos índios. Mas o que que ela ajuda? Como ela pode ajudar? Esclarecer mais os nossos direitos.
Maté: Foi muito rápido. E algumas palavras que você falaram eu não compreendi nada. Essa linguagem formal, eu não entendi quase nada. Eu não anotei nada. Eu aprendi através da gente mesmo. As coisas tem dois lados, lado bom e lado ruim. Aprendi sobre a fluidez do conhecimento. Eu não sabia da oficina. Ninguém me deu bom dia, será que ninguém tá me vendo. Mas fui um guerreiro e participei. Para o próximo encontro, poderíamos comparar a legislação indígena com a lei brasileira. A lei do Brasil todo mundo vê. Os índios não tem lei, mas regras. O índio que é velho não cumpre as regras também. Acontece o erro aqui dentro também. Quero conhecer a lei geral e ver as regras dos índios. Tem três regras: lei do branco geral, a lei do branco para o índio e temos que ver a lei que está na mente do índio. Mas tem que conversar com calma. Para mim foi tudo reflexo, porque tudo foi verbal. As informações na losa são importantes, para a gente copiar, não esquecer, ler depois. Tentei copiar mas não consegui. Quando vocês falam de estratégia, ainda não compreendi. No próximo encontro, queria que vocês inventassem um problema e construíssemos juntos uma estratégia. A gente misturou acordo com estratégia. Foi muito importante a presença do Kumaré, porque as idéias deles já estão maduras, a nossa ainda é bem verde.
Oporike: Gostei muito dessa oficina. Para mim foi uma novidade. É muito importante falar de site. Para mim era divulgar qualquer coisa para o mundo. Não tinha problema divulgar música. Mas não é bem assim, mas tem que ter cuidado com o site. Vocês poderiam anotar alguma coisa lá. Foi muito rápido. Espero que vocês expliquem mais e nos dêem tempo para aprender. A gente não conseguia captar as coisas que vocês falavam. Se tiver como escrever, é mais fácil de aprender depois que vocês vão embora. Para a próxima, é importante tratar sobre os direitos dos índios. Eu pensava que índio não tem direito e eu aprendi que tem direitos. Então na próxima é importante abordar os direitos dos índios. Quando a gente está estudando é rápido. Na próxima espero que vocês fiquem mais tempo aqui, e estamos de braços abertos para receber vocês.
Paiatá (aluno e professor): Eu não tinha sido convidado. Na minha visão, gostei muito. Aprender coisa dos políticos, como advogados e outros. Como podemos trabalhar as coisas dos não índios e ter respostas para nós. Eu não participei mas fiquei avaliando o trabalho de vocês e acho que foi muito bom. E trazer os políticos para ensinar como é que a lei do índio.
Txontó: Eu estou participando de quase todas as oficinas. É sempre uma novidade. Eu pensava que abrir site e colocar qualquer imagem dos Ikpeng para divulgar. E vamos colocar tudo lá. E aí apresentaram os pontos negativos. Na parte da lei, eu já estudei um pouquinho dos direitos indígenas, mas nem sempre são respeitados. Como exemplo, as barragens, pois a lei diz que os índios tem de ser consultados quando tem obra no limite das terras indígenas, mas isso não acontece. Mas mesmo assim a gente tem que conhecer. Eu conheci o projeto Petrobrás aqui e não entendi algumas palavras difíceis. Essa oficina foi muito rápida. Mas eu sei que para a pessoa que tá fazendo a atividade, sei que o tempo é diferente. A gente conheceu a realidade do site, tecnologia que já entrou na vida dos índios. A gente tem que saber como usar a tecnologia, para não estragar a nossa cultura. Espero que a gente conheça mais um pouco o mundo de fora e os nossos direitos.
Maiuá (professor): Eu vou falar mal e bem. Para mim foi tão bom porque os alunos conheceram várias coisas, a importância das tecnologias e como usar. Aprenderam um pouco sobre direito da imagem e vão nos ajudar na associação com os proprietários da imagem e os autores. Entenderam o direito do autor e da pessoa que fica em frente das câmeras. Espero que entendam ainda mais sobre a importância dos dois. Aprendi várias coisas durante as oficinas. Sempre que a gente trata das leis, vem o desentendimento, mas tem que ser assim mesmo, debatendo (objetivos, como usar, etc). Por isso foi importante. Deixamos a discussão para as pessoas que vão atuar perante a associação, e não para quem já atua. Mas a gente queria ouvir mais deles, dos mais jovens, e por isso ficou como se tudo estivesse sobrando para eles. Era a oportunidade deles falarem, acompanharem. A oficina trouxe muitas coisas novas para eles (site, e como trabalhar com o site). Espero que esse aprendizado possa ser colocado na prática. No momento que estamos tratando das leis, já estamos falando de política, tanto em relação a vida de fora, quanto a de dentro. Sabe como são os índios, eles reconhecem o trabalho que eles estão fazendo. Se agente excluir esse projeto, acaba com o projeto da casa de cultura. Tento fazer eles entenderem a importância da casa de cultura e dessas oficinas que eles estavam falando.
Kumaré (chefe do posto e presidente da Associação): Estou deixando a presidência da associação, mas não me afastarei completamente. Essa oficina veio no momento certo, porque as pessoas que vão assumir a associação futuramente não tinham esse conhecimento, para abrir um pouco o olhar dos meninos em relação a essa tecnologia que está chegando. A oficina correu bem, dentro da previsão. Algumas coisas a gente adquiriu da experiência de vocês, e vamos seguir a orientação durante a construção de banco de dados.